Catorze anos

20171102_subindo2 de Novembro de 2017 Ponte Sampaio, Pontevedra, Espanha

Completo este mês catorze anos de trabalho na I&D tecnológica em torno das redes eléctricas. Mantenho a avaliação que fiz há quatro anos quando escrevi “Dez anos” com alguns matizes. É sobre os últimos quatro anos – e os anos futuros – que reflicto agora.

Em Dezembro de 2015, constatei que o meu trabalho tinha completado um ciclo de inovação disruptiva (no âmbito muito estrito desta actividade técnica) na medida em que quase tudo o que que trouxemos de inovador à inspecção de linhas se transformou na nova referência.  Era por isso chegado o momento de lançar um novo ciclo, neste domínio ou noutro, de forma a alimentar a “fome de inovação” da equipa de que sou parte. Passaram dois anos e fracassámos nesse objectivo, parece que estamos “saciados” e sem vontade de arriscar tudo numa nova aventura de descoberta como escreveu Kipling:

If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,

Talvez porque o estado actual, em que o negócio se desenrola de forma estável, nos conforta e cria um aconchego mental que torna insuportável a eventualidade da angústia descrita no verso seguinte:

And lose, and start again at your beginnings
And never breathe a word about your loss.

Dois anos lutei para estimular a ansiedade de inovação e a criatividade através de experiências e oportunidades de “sair da caixa”. Dois anos volvidos, a equipa “expulsou-me” por criar e espalhar o caos sem chegar a lado algum.

Depois de doze anos a ler livros de gestão de equipas, de inteligência colectiva e de inovação aprendi uma nova e amarísssima lição: o tempo torna-nos comodistas, em muitos casos barrigudos (e carecas no caso dos homens 😦 ) e quanto mais acumulamos ao longo do tempo, mais difícil se torna abdicarmos do que já alcançámos.

E se numa mesma organização há uma equipa de inovação disruptiva e outra de manutenção e de invovação incremental, o ritmo dos pequenos sucessos e o conforto de vida da segunda agem como um canto de sereia irresistível para os aventureiros da primeira que andam mais ou menos perdidos à procura do próximo grande sucesso.

Seria possível criar um “skunk works” ?

Se a maioria dos engenheiros não consegue dividir a sua personalidade em metade “revolucionária” e metade “estabilizadora”, se a organização não tem dimensão suficiente para ter duas equipas com personalidades opostas, além de todos os especialistas afirmarem que a INOVAÇÃO tem de abranger TODA A ORGANIZAÇÃO e não cingir-se a um departamento dedicado, como se mantém uma equipa em modo de “revolução”?

Uma das soluções mais famosas para este dilema entrou na história com o nome de “skunk works” (ver artigo na Wikipedia em inglês). Mas os meios – recursos económicos e talentos – para fazer arrancar um “skunk works” estão fora do alcance da maioria das PME, mesmo daquelas que se ligam às universidades para ampliar a sua rede de talentos e competências. O facto de ter começado na Lockeed Martin é ilustra o universo de organizações que podem aspirar a criar skunk works.

Eu adoraria trabalhar num ambiente desses mas precisaríamos de muitas mais pessoas (30, 40 engenheiros? ) para poder seleccionar o número suficiente de “skunk workers” (a equipa original tinha 40 pessoas). A alternativa acessível é procurar uma equipa em princípio de carreira que não tenha ainda ganho nada e por isso tenha uma natural “fome de inovação” que decorre da fome de subsistência, à falta de melhor estímulo.

Serei ainda um aprendiz de feiticeiro?

Dizem as pessoas à minha volta que continuo um miúdo:  irreverente, desordenado e ingerível que semeia “porquês”, “porque nãos?”, hipóteses alternativas e pés de vento por onde passa. Mas se a reverência implica deixar de pôr em causa o óbvio e o que nos impingem como óbvio, se a gestão implica ignorar as hipóteses alternativas porque basta uma resposta para cada pergunta e se a ordem implica fugir dos pés de vento em vez de persegui-los e envolver-nos neles, então eu quero continuar gaiato e aprendiz de feiticeiro.

“O Aprendiz de Feiticeiro” é um poema de Göethe (para saber mais consulte os artigos na Wikipedia em inglês e em português) popularizado por centenas de políticos, que chamam uns aos outros “aprendizes de feiticeiro”, a propósito e a despropósito, e  pelo filme Fantasia de 1940 (ver artigo da Wikipedia em inglês) de Walt Disney, que o “casou” com um poema sinfónico de Paul Dukas. De todas as peças da Fantasia, esta é aquela de que gosto menos mas é, sem dúvida, uma das mais populares.

Richard Feynman (1918-1988) escreveu algumas páginas admiráveis sobre como era importante incutir nas crianças a necessidade de verificar o que todos já sabem e as coisas que se acham óbvias – como as leis de Newton –  e eu aprendi que me aproprio muito melhor do “óbvio” após experimentá-lo.

Se perguntarmos a alunos de 15 anos se acham evidente a Lei da Inércia, a maioria dirá que sim. Mas se relermos o Poema para Galileu de António Gedeão recordaremos quão herético foi o óbvio de hoje:

Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Depois de fazer a experiência da medição da Constante de Gravitação Universal usando a “Balança de Cavendish” nunca mais olhei para a força da gravidade da mesma maneira e no entanto, descobri o resultado que já sabia: G = 6,674 x 10-11 m3kg-1s-2.

Mas ao longo dos anos aprendi mais sobre a eloquência da experiência: aprendi que quando alguém me está explicando algo e, chegando a uma passagem que me parece obscura, esse alguém me diz que ela é evidente, na maioria dos casos, essa pessoa também não percebeu a passagem e quer fugir dela como um gato foge da água: silencioso e veloz para passar despercebido.

Em resumo, o saber de experiência feito, e pôr em causa o que estabelecido, não para refutar ou destruir, mas para nos apropriarmos dos seus múltiplos significados e pistas de imaginação e investigação, continuam a orientar o meu trabalho.

Fazendo o balanço, o inadaptado sou eu e resta-me partir para tentar cumprir o verso “start again at your beginnings“… e veremos se o futuro me reserva ocasião para um novo balanço destes. Não quero queixar-me de onde cheguei, mas queixo-me da falta de desconhecido à minha frente.

De que precisarei?

Para me lançar numa  viagem  assim, precisarei de ser ágil e partir com pouca bagagem. Restringindo-me ao essencial, o que devo levar na minha mochila? Escolhi quatro “bens”, listados por ordem alfabética para não ter de determinar precedências ou hierarquias de valor.

Aventura

A descoberta pessoal da vocação (beruf ou “chamamento” segundo Max Weber) é um dos processos mais decisivos de cada vida e tem impacto transformacional nas escolhas daí decorrentes.  A minha vocação é claramente inventar/descobrir soluções para problemas reais usando a electrotecnia, a robótica e mais recentemente a aeronáutica, e esta vocação tem uma elevada componente de aventura.

A aventura é o antónimo do plano. É abraçar a incerteza como motor da história e não como obstáculo. Se soubermos o final da história, já não lemos o livro…

Viver em aventura é cansativo e, na maioria das vezes, frustrante, porque não se chega a resultados/sítios interessantes.  Mas é o estado de espírito que nos leva a expandir as fronteiras das nossas capacidades, mesmo que seja para constatar quanto mais falta por descobrir (e isso é bom, porque daí surgirão novas necessidades a satisfazer!)

A aventura pode não implicar risco físico de vida, mas implica risco pessoal. Risco de frustração (“never breathe a word about your loss“), risco de não alcançar os resultados, ou só os alcançar over-time ou over-budget, quando a sociedade já não os quer, risco da concorrência, emergência da obsolescência ou da irrelevância.

A aventura em engenharia não pode ser um exercício narcísico e tem de ser orientada para a resolução das necessidades apresentadas: a sociedade indica-nos o destino, cabe aos engenheiros aventurosos traçar o mapa até lá. Esse mapa é o plano que deixarão aos outros engenheiros que os seguirem.

Curiosidade

A curiosidade é o campo magnético que nos orienta no desconhecido: não força uma rota mas atrai-nos numa direcção. Infelizmente, e ao contrário do campo magnético terrestre, a curiosidade tem muitos pólos e focos e é fácil numa qualquer fase de um trabalho vermos a agulha da nossa curiosidade agitar-se frenética em várias direcções hesitando e sem se fixar em qualquer uma delas. A conduta ideal seria explorar todas as que nos parecessem promissoras mas isso costuma ser inviável por falta de recursos e porque nos impediria de chegar à solução final do problema que nos propuseram.

Ah! E a curiosidade, tal como o campo magnético, está sempre activa! Ficou famosa a frase atribuída a Dorothy Parker “Curiosity is the cure for boredom. There is no cure for curiosity.”

Resistência

A resistência é o “bem” que mais demora a alcançar. Quando somos muito jovens pensamos que aguentamos tudo mas o facto da curiosidade ter muitos “pólos” de atracção e da vida sem aventuras ser tão mais confortável, torna fácil mudarmos de rumo, sem termos de nos justificar, nem sequer a nós próprios.

Ao fim de algum tempo, percebemos que novidade nem sempre é aventura,  e começamos a crescer em resistência. E é nesta fase que a resistência se torna o sinónimo da tenacidade. Resistir é ter a paciência de tentar um segundo caminho quando o primeiro não deu certo, resistir é ter a humildade de procurar ajuda porque sozinhos não seremos capazes de chegar ao objectivo,  resistir é curar as feridas e reerguermo-nos depois de uma queda. E antes de abandonarmos um objectivo para o qual trabalhámos arduamente teremos de discernir intimamente os motivos que nos levam a fazê-lo: Conforto? Beco sem saída? Dificuldade excessiva? Melhores compensações? É fácil enganarmo-nos e tomar  más decisões pelas melhores razões.

Numa entrevista ao Jornal de Negócios de 7 de Dezembro de 2017, Cristina Fonseca, co-fundadora da start-up Talkdesk conta que ela e o outro co-fundador tentaram três ideias diferentes antes de chegarem àquela que veio a singrar no mercado pouco após terminarem os seus mestrados. Isso revela um grau invulgar de resistência em pessoas tão jovens e em áreas em que as alternativas não “aventurosas” são imensas e bem recompensadas.

Numa das muitas leituras e visionamentos de filmes de gestão da motivação de carreiras pessoais, encontrei este de Simon Sinek, um antropólogo que faz carreira nesta área. E, a partir dos 7m20s deste vídeo, ele explica como os “millenials” – a geração que hoje melhor poderia responder às necessidades e oportunidades de I&D+i da sociedade – é incapaz de se satisfazer por falta de resistência ou, como ele diz, “impatience” e necessidade de “instant gratification“.

Subversão

Finalmente, a subversão. Esta deve ser usada quantum satis em engenharia* pois ao trabalhar na resolução de problemas reais, corre-se o risco de não conseguir integrar uma proposta subversiva no contexto económico e social. Ainda assim, a história recente da tecnologia tem revelado o poder de perguntar “porque não?” e de ignorar os limites da ordem instituída.

Em engenharia, a subversão exige também o seu oposto: a responsabilidade. Mesmo que a sociedade valide uma solução subversiva, os seus criadores terão de responder pelas suas escolhas e serão chamados a colmatar falhas e inconvenientes.

O medo da subversão leva os engenheiros a escolher caminhos “incrementais”, que correspondem a andar na orla do desconhecido sem verdadeiramente se embrenharem nele. É possível chegar ao destino fazendo tangentes ao desconhecido, mas as grandes aventuras estão reservadas àqueles que arrancam na perpendicular, deixando o conhecido para trás.

Conclusão

Como se percebe das quatro descrições, precisarei de outros bens ou valores, muitos deles opostos a estes quatro. Estes, escolhi-os de forma deliberadamente enviesada porque foram aqueles que tenho tido mais dificuldade em encontrar no mundo à minha volta.

Os outros: a ambição, a colaboração ou solidariedade, a complementaridade, a crítica, o método,  a qualidade, a responsabilidade, o rigor, o sonho, etc..  são mais fáceis de encontrar e todos à minha volta quererão oferecer-mos, tal como nas corridas de ciclismo se dão líquidos aos corredores que passam. Por isso, não irei sobrecarregar a mochila.

Aliás, já aprendi (pela “resistência”) que tentar fundar os valores de um organização num conjunto desequilibrado ou enviesado traz maus resultados: ou os valores são ignorados e tornam-se irrelevantes no trabalho (todos queremos a paz no mundo e isso não muda nada), ou as pessoas não aderem a eles e vão-se embora.

Será a minha quinta grande viagem. Estou mais velho, mais trôpego, mais burro e mais cansado. Mas se partir, isso significa que ainda não desisti, nem dos homens, nem da engenharia. Procurarei pessoas que queiram fazer uma viagem para destinos próximos aos meus e que queiram pôr em comum os seus valores com os meus. E se na minha busca encontrar um “skunk works” que me aceite, sou capaz de me dar bem.

* É irónico que o sistema de controlo de versões de desenvolvimento de software que uso no trabalho se chame “Subversion”: é dos elementos mais rigorosos e planeados do meu quotidiano. Por esse motivo, é um alicerce de segurança sobre a qualidade e completude do que fazemos e, ao mesmo tempo, um ódio de estimação pela normalização que nos exige.

Post Scriptum

Com estas reflexões completo 100 posts. Comecei este blog em 2013 com três objectivos: 1) desanuviar o meu espírito dos problemas do quotidiano que esgotam todas as minhas energias; 2) experimentar formas de web design que separam radicalmente o conteúdo da forma e 3) homenagear o foto@pt, essa comunidade percursora e hoje perdida de amantes da fotografia.

Se me tivessem dito que eu chegaria a 100 posts, teria respondido “duvido muito”, afinal a minha galeria do foto@pt só tinha 30 fotografias e não imaginava ter muito mais a dizer ou escrever. Passados quatro anos e meio, começo a pensar que, continuando  a cirandar nesta almofala, ainda me arrisco a cruzar 1000 artigos diferentes se continuar por cá mais umas três ou quatro décadas…

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