A preponderância do registado sobre o vivido

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Drone, siga aquele carro!
17 de Junho de 2017, Montemor-o-Novo, Portugal

O uso de câmaras pessoais expandiu-se muito nos últimos anos nos mais diversos meios e para fins ainda mais diversificados: os ciclistas usam-nas em França para documentar o desrespeito de que se sentem alvo pelos automobilistas, os polícias usam-nas nos EUA para demonstrar que fazem um uso proporcionado da força e os seus superiores usam-nas para combater o uso desporporcionado da força; os metódicos usam-nas para registar os instantâneos da actividade diária como se fossem um bloco de notas; os apaixonados para registar cada momento dos seus amores.

Contar a vida na primeira, na segunda ou na terceira pessoa

As câmaras tornam-se omnipresentes e estão sempre activas. Tudo se grava, e por isso, viver é gravar e parece que só o que é gravado é vivido. Mas o facto de tomarem diferentes pontos de vista, permite-lhes contar histórias diferentes tal como na literatura o autor pode escrever na primeira, na segunda ou na terceira pessoas (pode ainda escolher singular ou plural, mas por ora deixarei de parte esta variabilidade).

Registar a vida na primeira pessoa é montar uma câmara no próprio corpo e ver as acções decorrerem de uma forma próxima aos próprios olhos: os braços a mexer, a câmara a rodar com a cabeça etc. É a modalidade mais comum das “action cam” ou “sports cam” montadas no capacete ou num arnês. É também uma visão popularizada pelos jogos de computador de acção designados “first person shooter”.

Registar a vida na segunda pessoa é acompanhar a acção do outro e interagir com ele enquanto se regista a acção: é uma olhar próximo, de igual para igual. Neste caso a câmara já é operada mais activamente, com zoom e enquadramento mais certeiros. Esta é a modalidade escolhida pelos pais para registarem as proezas dos seus filhos, amigos em festas, animais de estimação e também já se faz com UAV.

Registar a vida na terceira pessoa é fazê-lo de cima, sem interagir com o sujeito da acção. Esta é a modalidade mais comum de uso dos UAV. Neste âmbito mais estrito, ainda não chegámos à câmara voando sobre nós 24 horas por dia, mas vamos por esse caminho. Posso estar iludido mas parece-me que a popularidade da “vista de cima” ou “bird’s eye view” foi popularizada pelos jogos de computador e agora as pessoas gostam de ser ver “imergidas” no mundo real/virtual vendo-se a si próprias como uma terceira pessoa que age num terreno de jogo.

A implementação mais simples desta tecnologia passa por um receptor de GPS que trazemos preso ao nosso corpo e que comunica via rádio com o UAV por cima de nós, enviando a nossa localização e direcção de movimento de forma a que este possa seguir-nos automaticamente e numa posição relativa pré-determinada. Há outras soluções mais recentes que dispensam o receptor de GPS usando software de processamento de imagem para identificar o sujeito da acção mas estas que exigem que a pessoa esteja mais isolada e em movimentos mais regulares e suaves para que consigam segui-la eficazmente. Claro que se mantém a hipótese de controlo à distância a partir de um piloto no solo.

Quais serão as consequências deste “seguimento” constante?

A resposta mais óbvia é a perda de privacidade: já vejo os pais a reclamarem o direito de seguir os seus filhos até à escola em nome da protecção contra um eventual criminoso que os aborde pelo caminho e as forças de segurança a reclamarem mais câmaras de vídeo no ar para os mais diversos fins, desde o combate ao crime até à busca de pessoas perdidas. No fundo, se as pessoas já se habituaram a estar permanentemente filmadas pelas câmaras fixas nas ruas e nos estabelecimentos comerciais, passar para câmaras montadas em drones é  somente tornar móveis os “observadores” que já hoje existem, tal como ilustrei n’ “A fronteira da terceira dimensão“.

A segunda consequência é a confusão entre registar e viver: se só o registado é verdadeiramente vivido, então se eu não puder registar, não vale a pena vivê-lo. Este comportamento exibicionista existe há séculos: os adolescentes “só” fazem loucuras se tiverem uma assistência para impressionar.

Porém, este comportamento estende-se agora a outros grupos etários e, sobretudo, no afã de procurar optimizar os requisitos do registo é fácil negligenciar a ponderação dos riscos de segurança incorridos pelo operador do UAV e pelas personagens da acção (que podem ser a mesma pessoa, aumentando a probabilidade de falha). Um exemplo prático: será que um surfista que se grava a si próprio (na “terceira pessoa”, usando um transmissor com GPS) presta a mesma atenção às ondas do que quando não tinha um UAV? Será que se expõe a riscos maiores só porque não quer perder a oportunidade de registar um filme espectacular por meio do seu UAV? Ou, de forma benigna, será que se esquece do UAV para saborear as ondas e a água salgada até que recebe um aviso de fim de autonomia? E nesse caso, volta à água sem o UAV ou limita o seu desporto e lazer às oportunidades de gravação? Onde está o prazer maior: em surfar as ondas ou em mostrar a terceiros o registo das ondas surfadas?

A crescente mediação na recepção da informação

Um dos propósitos fundamentais da tecnologia de impacto social das úlitmas décadas é a noção de tele-presença: estar “lá” sem lá estar. Foi para isto que se inventaram as tele-conferências, os sistemas de realidade virtual, as experiências de imersão sensorial, os simuladores, e até os robots móveis que circulam com sistema vídeo bi-direccional que permite a quem está fisicamente ver e conversar com quem está à distância.

Nota técnica

Eu uso de forma abusiva a expressão “tele-presença” para agregar vários conceitos diferentes que incluem a tele-presença propriamente dita (que se limita a teatros de operações reais, ver artigo na Wikipedia em inglês), a simulação, a realidade virtual, a realidade aumentada, etc..

Há casos em que estas ferramentas podem salvar vidas. Trabalhei num projecto cujo objectivo era desenvolver tele-presença em cenários de catástrofe em centrais nucleares, por exemplo, onde não queremos de maneira alguma enviar humanos para “lá”.

Mas estas ferramentas têm também inconvenientes subtis que são frequentemente negligenciados. Referirei brevemente alguns e depois detalharei melhor aqueles que se aplicam ao universo dos drones/UAV. Os principais inconvenientes são:

  1. Limitações sensoriais: o nosso corpo está preparado com cinco sentidos (e mais alguns sub-sistemas sensoriais) e os sistemas de tele-presença tratam sobretudo de dois: visão e audição. Toda a experiência associada aos outros três sentidos, com destaque para o olfacto e o tacto, perde-se na mediação tecnológica.
  2. Dissociação sensorial: à medida que a tecnologia melhora, sentimo-nos cada vez mais “lá”, correndo o risco de perder a noção de que estamos em tele-presença, enquanto o nosso corpo espera pela experiência integral da presença. É frequente os jogadores de simuladores em computador moverem o corpo de acordo com a aceleração que “deveriam” estar a sentir – mas não sentem! – e os simuladores profissionais de pilotagem (por exemplo) incluem estas acelerações que estimulam o nosso tacto e o sentido de equilíbrio. Mas na maioria dos casos em que a experiência sensorial se limita à visão e audição, o nosso corpo reage com estranheza à dissociação sensorial.
  3. Perda de contexto: a maior parte dos sistemas de tele-presença são dirigidos para um objectivo. E como são computacionalmente exigentes, eliminam os elementos não relacionados com esse objectivo. Ora a apreensão e resolução de surpresas e casos inesperados é uma parte fundamental da experiência humana da realidade: uma pessoa que se habitue à tele-presença pode sentir-se capacitada para exercer uma tarefa na realidade e quando o chega à realidade real descobre que há factores críticos de decisão que lhe são estranhos e que não sabe resolver.

Estes três inconvenientes também se fazem sentir no mundo dos UAV.

Em relação à privação sensorial, a perda mais evidente é a da noção dos elementos meteorológicos circundantes: o vento, a humidade, a orientação do sol e a temperatura, todos esses sinais deixam de ser percepcionados pelo piloto no solo, sendo verdade que a observação das imagens e a resposta dinâmica dos motores permite aos pilotos com um mínimo de experiência, intuir algo do que se passa em torno da sua aeronave. Embora o som esteja disponível em teoria, na realidade o ruído dos motores ou do ar silvando nos microfones sobrepõem-se a todos os ruídos no solo, limitando a experiência sensorial de um UAV à visão numa direcção. Por isso, a ocorrência de um incêndio ou um ruído estrondoso são difíceis de localizar no espaço relativamente ao drone, o que não seria o caso se o piloto estivesse “lá”.

A dissociação sensorial é mais importante para os pilotos que operam aeronaves tripuladas e não tripuladas porque não sentem o que esperariam sentir. Já aqueles que nunca sentiram essas sensações não podem sentir a privação, apenas sentirão mais dificuldade a desempenhar as suas tarefas. Há um aspecto de mediação que é específico dos UAV e que é muito importante: os tempos de reacção. Na medida em que as respostas a estímulos são sujeitos a codificação, transmissão, recepção e apreensão pelo piloto ou operador de solo e só depois se procede à acção em conformidade, os tempos de reacção aumentam significativamente o que obriga os pilotos de UAV a operar com margens de folga superiores além de terem de prever mecanismos de contingência para o caso da transmissão sensorial se degradar. Obriga-os também a aprender a não sobre-reagir para evitar que as manobras correctoras excedam os estados que se pretende  corrigir (isto é muito frequente nos principiantes que oscilam os comandos entre extremos acabando por levar os UAV a comportamentos instáveis).

Finalmente, a perda de contexto é a falha mais frequente dos pilotos de drones: batem nas árvores e noutros obstáculos quando estão a filmar para o chão, recuam por instinto, esquecendo-se que só vêem para a frente, não sentem o vento a levantar-se, seguem tão intensamente o seu objectivo que não reparam se estão a violar os direitos de privacidade ou imagem de terceiros. Já todos vimos filmes divertidos destes fracassos (recorde-se: só é vivido o que foi gravado, por isso tudo é gravado) mas por trás dessas anedotas estão casos reais negativos e até dolorosos.

O recurso a um operador de solo diferente do piloto ou a um observador (realmente) “lá” ajuda muito a mitigar estes riscos.

Nota final

Este artigo é o terceiro de uma série sobre aviação não tripulada encarada como uma inovação tecnológica transformacional. Os outros artigos são:

  1. O fim do privilégio de Ícaro.
  2. A redefinição das fronteiras, que passarão de duas dimensões para três dimensões.
  3. A preponderância do registado sobre o vivido.
  4. Aspirar a ser insecto.

* UAV = Unmanned Aerial Vehicles ou também RPAS = Remotely Piloted Aircraft Systems) ou, em português, VANT=Veículo Aéreo Não Tripulado ou ANT=Aeronave Não Tripulada ou ainda simplesmente “drone”.

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3 responses to “A preponderância do registado sobre o vivido

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