Ninguém chega sozinho a Santiago

14 de Agosto de 2015, Santiago de Compostela, A Coruña, Espanha

Quer se comece o caminho sozinho, em pequenos grupos ou numa peregrinação organizada, uma coisa é certa: todos chegam a Santiago acompanhados. Durante o caminho, encontrámos pessoas que caminhavam sozinhas. Mas essa solidão é transitória porque rapidamente se trocam saudações e se partilha um pedaço da jornada. À noite, à chegada aos albergues e pensões, no cruzamento nas esplanadas das aldeias e vilas, reencontramo-nos e com vagar e vontade de conversar.

 

Numa manhã, bem cedo (os caminhantes levantam-se antes do sol!), encontei um camponês septuagenário, que contava demorar 10 dias para fazer um trajecto que nós planeávamos fazer em 3 ou 4 dias. Disse-me que todos os anos ia a pé a Santiago e que, à medida que os anos passavam, sentia que precisava de juntar mais um dia à sua peregrinação mas não deixava de ir.

Nessa tarde, à hora em que o sol a pino convida ao descanso das pernas e à reflexão, eu e os meus companheiros de ocasião fomos ultrapassados numa subida particularmente íngreme por uma jovem em excelente forma física que passou como um pé-de-vento  dizendo um curto “bon día”. Encontrámo-la no alto do caminho a retemperar energias, bebendo água e comendo alguns frutos secos à sombra de um carvalho. Trocámos algumas frases e ela explicou que contava chegar a Santiago 2 dias depois, enquanto o nosso plano era chegar lá 3 dias depois. Logo se levantou e retomou a marcha, desaparecendo rapidamente no pó do caminho. Não a vi durante dois dias. Na véspera de chegarmos a Santiago, saí ao pôr do sol para dar uma volta e encontrei-a novamente, agora sim, a descansar a sério. Sorriu-me e disse que não valia a pena perder a vida para ganhar um dia. Acabámos por nos rever na praça do Obradoiro na manhã seguinte.

Também encontrámos um casal de surdos-mudos. Um dos meus amigos conseguia falar e entender alguma coisa do que eles diziam mas eu tive muita dificuldade. Isso não nos impediu de os acompanharmosao longo de dois dias, às vezes lado a lado, às vezes mais à frente, outras mais atrás, num entendimento silencioso e caloroso.

E encontrei o Paul e mais pessoas interessantes que ficam para outros textos.

 

E mesmo que, por absurdo, um caminhante fizesse questão de não falar com ninguém durante todo o Caminho, ainda assim sentir-se-ia irmanado com as pessoas que cruza, primeiro sozinhas e aos pares, depois às mãos cheias e finalmente às dezenas ao subir para Santiago. No último dia, parece que detrás de cada árvore e debaixo de cada pedra salta um peregrino; olhar à volta e pensar que “todos caminhamos para o mesmo fim” é uma fonte de simpatia intenssíssima, mesmo se muda.

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