A I&D portuguesa perdeu a vergonha de falar em dinheiro

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19 Julho 2006, Benavente, Portugal

Terceiro artigo da série

O discurso pré-moderno contra a ciência

A relação da comunidade de I&D portuguesa com o dinheiro é atribulada. Sê-lo-á também em muitos outros países mas, dada a fraca divulgação dos benefícios da ciência entre a população, há três argumentos clássicos que é necessário ultrapassar:

  1. Portugal é um país pobre que não se pode dar ao luxo de pagar I&D. Quando muito, poderá copiar os resultados alheios, poupando imenso dinheiro em excursões intelectuais que não vão dar a lado nenhum. Por cada investimento que se gasta numa máquina ou num centro de investigação há sempre dezenas de melhores investimentos sociais a fazer que são muito mais urgentes para tirar o país da miséria. Infelizmente, não se constata que às reduções de financiamento de I&D se associe uma redução da pobreza nem vice-versa. Portanto, por melhores que sejam as intenções, a experiência demonstra que a poupança em I&D não resolve a pobreza em Portugal.
  2. A ciência e a cultura não enchem a barriga nem pagam as contas. Esta é o formulação longa da pergunta clássica: mas uma  estátua serve para quê? Para que serve o que tu andas a estudar? A maior parte das pessoas a investigar em medicina costuma escapar a estes julgamentos porque doenças temos todos e à medida que a população envelhece, mais doenças teremos e mais anos vivemos e por isso alguma coisa os investigadores andarão a fazer bem feito. Mas em muitas outras áreas a investigação mais fundamental, de estudos sociais, de letras e história e a arte em geral, os financiamentos são frequentemente encarados como dinheiro deitado à rua. O facto de largos sectores da população não serem consumidores ou benefíciários desse investimento – situação que foi combatida na época de Mariano Gago como já referido – reforça a percepção de inutilidade. Às vezes, a melhor forma de mostrar os resultados da I&D às pessoas com mais de 40 anos, é apelar à memória delas dizendo: e lembra-se como era variável a qualidade das laranjas? Agora é muito mais certa. E o vinho? Quanto melhorou? Lembra-se das filas para pagar o IRS? Não é bom poder usar a Internet? E os telemóveis? E as latas de bebidas, já viram como são hoje mais leves e económicas? E os actores portugueses, quantas pessoas já viu na TV, no teatro e no cinema?
  3. Os cientistas e intelectuais trabalham por amor ao saber, não precisam de dinheiro. Este julgamento cai mais sobre as pessoas de letras do que sobre os cientistas mas ainda há muito quem pense que à  Física e à Matemática bastam o papel e o lápis.

A este tipo de argumentos não basta contrapôr o efeito da Escola de Sagres e da aposta do Infante D. Henrique no avanço científico e quanto Portugal melhorou e cresceu durante os Descobrimentos, antes de descobrir que “não podia” pagar I&D, que a I&D não servia para nada e que os filósofos viviam do ar. Vou tomar a expressão “filósofo”  no sentido lato de “amigo do saber” para agregar professores,  investigadores e estudiososos profissionais em todas as áreas da matemática, ciências, engenharia, economia, ciências sociais, humanidades e artes, sempre que isso permitir abreviar o texto.

Talvez por olharem à sua volta vendo tantas necessidades e sentirem que nem sempre as suas pesquisas conduzem a bons resultados, os filósofos encolheram-se durante muitos anos e muitos escolheram calar sem argumentar.

E, no entanto, o financiamento da I&D cresceu

Primeiro cresceu disfarçado pelo aumento de alunos a frequentar as universidades – que obrigou ao aumento de escolas e de corpos docentes e levou ao crescimento do ensino superior politécnico alguns anos depois, contribuindo também para aumentar o número de filósofos.  Em paralelo, o financiamento cresceu graças às políticas públicas objectivas de melhoria da I&D, muitas delas fomentadas e fortemente comparticipadas pela União Europeia a partir de 1985 e com fôlego reforçado uma década depois.

Com estes financiamentos mais volumosos e protocolizados chegou a orientação aos projectos e a competição. No fundo, o financiamento de base que decorre do currículo e carreira acumulados, baseando-se portanto no comportamento passado de cada filósofo, tornou-se secundário face aos projectos que cada grupo de filósofos se propõe realizar no futuro. Se os salários dos corpos permanentes do Ensino Superior e Laboratórios de Estado constituem uma base de financiamento constante, esta foi superada pelas novas formas de financiamento.

Trata-se de uma mudança muito importante a vários níveis:

  1. A ênfase da atribuição de mérito passa da esfera individual (o professor) para a esfera colectiva (o grupo de investigadores).
  2. A ênfase da valorização passa do passado (o que já fiz) para o futuro (o que proponho fazer).
  3. O interesse e a valorização passam do processo (a investigação & desenvolvimento) para o produto: os resultados.
  4. O peso crescente dos financiamentos europeus viria a introduzir progressivamente uma nova ênfase na cooperação internacional, que tem vindo a crescer ao longo das décadas.

A partir do momento em que a procura de financiamento por esta comunidade crescente de filósofos é inferior aos recursos disponíveis, é preciso demonstrar junto dos financiadores porque é que aquela proposta deve ser financiada e ficar calado já não é opção porque quem não se candidatar só recebe o financiamento via salário, e isto se já tiver um vínculo permanente a uma instituição de I&D.

E foi assim que a comunidade de I&D portuguesa perdeu a vergonha de falar em dinheiro: teve de explicar o que queria investigar, para que fim serviria essa I&D e que benefícios adviriam para a sociedade, quanto custaria esse trabalho, quanto tempo demoraria, quais seriam os riscos de insucesso envolvidos, como se repartiria o financiamento solicitado (investigadores, equipamento, custos de operação), se haveria fontes complementares de financiamento que ajudem a reforçar o interesse da ideia, etc..

O dinheiro tornou-se num elemento central da I&D, com os filósofos a organizarem os planos de actividades e as relações com terceiros à volta desse fulcro. Olhando à minha volta, vejo que a maior parte dos filósofos continua a estudar os temas que quer, mas também é frequente encontrar pessoas (e até grupos!) que aprenderam a querer investigar nas áreas em que conseguem financiamento.

Esta realidade aumenta o grau de responsabilidade das entidades financiadoras, sobretudo em termos de estabilidade e racionalidade dos apoios pois só com previsibilidade é possível estruturar um trabalho continuado de I&D. É possível investigar apresentando os resultados e desenvolvimentos protocolizados de três em três anos, mas já não é possível fazê-lo se houver grande incerteza se, após atingir os resultados de cada etapa, o caminho se interrompe subitamente.

Como é da natureza humana, pouco depois da protocolização dos financiamentos surgiu a concorrência (porque é que a minha candidatura foi rejeitada e aquela foi aceite?) e logo a seguir chegou a avaliação periódica (será que o dinheiro foi bem empregue? Será que os resultados prometidos foram verdadeiramente alcançados?).

 

Estava finalmente completa a arquitectura de um sistema competitivo de I&D.

Este sistema revelou-se capaz de gerir um volume e uma complexidade de financiamento e organização de actividades de I&D muito superiores e suportou a parte pública do crescimento de despesa em I&D dos últimos 20 anos (a parte privada será abordada no próximo artigo). Porém, como em quase todas as conjecturas humanas, reforçou algumas características negativas e introduziu outras. Listo abaixo as três que me parecem mais graves:

  • Trabalhar para os índices. Quando alguém quer aferir uma realidade complexa procura definir índices fáceis de medir que sirvam de ersatz (substituto) para o que não se consegue medir. Os resultados são conhecidos: se um professor diz numa aulta teórica “esta matéria não sai no exame” é habitual ver a sala a esvaziar-se porque muitos alunos trabalham para optimizar o índice (a nota do exame!) em vez de optimizarem o conhecimento das matérias.
    Isto é muito humano e muito mau, e também acontece nas candidaturas: se um projecto tem pontuação superior quando inclui investigadores com artigos muito citados, então todas as pessoas de um grupo se citam de forma cruzada, a propósito e a despropósito, para aumentar o número de citações globais. Se um projecto tiver mais pontuação quanto mais dissertações de mestrado promover, torna-se rentável partir cada tema de dissertação ao meio, aumentando o número de alunos ou bolseiros, mesmo que se diminua o nível de exigência e qualidade de cada trabalho (prejudicando o valor académico da aprendizagem). Este fenómeno é agravado quando os vários índices que compõem o funcional de mérito do projecto têm ponderações desequilibradas. É sabido que os aspectos com pouco peso serão negligenciados e que a criatividade será puxada ao limite para melhorar as pontuações nos critérios mais pesados.
  • Preferência pelos “caminhos” de menor risco. Quando o financiamento de longo prazo de um grupo ou até de uma organização depende de uma sequência regular e tão contínua quanto possível de financiamentos de projectos de curto prazo, é tendência dos proponentes ponderarem o tamanho do passo que se propõem dar: por um lado, propor um grande salto é intelectualmente entusiasmante e será mais pontuado numa candidatura, por outro, o risco de falhanço é maior e isso põe em risco a estabilidade económica das pessoas ou até a sobrevivência do grupo ou organização.
    Ponderando ganhos e custos, a humanidade costuma levar a melhor sobre a conhecimento e os projectos organizam-se como sequências de pequenos passos. Se isto fosse apenas uma questão de tempo até à descoberta, o prejuízo seria aceitável, o problema é que não se chega ao mesmo sítio quando se investiga por grandes saltos ou quando se faz um caminho pé ante pé. Há fronteiras do conhecimento que só se ultrapassam saltando no escuro.
  • Ênfase no curto prazo e na gestão de projectos. Com a passagem do filósofo solitário para o grupo e com os ciclos de candidatura-aprovação-execução-avaliação curtos, o trabalho de um filósofo sénior consome-se sobretudo na gestão de projectos: os ciclos são muito curtos, as actividades de qualquer projecto são muito díspares e cada uma das pessoas sob a sua liderança tem tendência a conhecer apenas parte das matérias em apreço. Portanto, o filósofo passou a gestor/administrador sem quase dar por isso. Esta mudança acarreta normalmente a perda de um bom filósofo (quero crer que só os bons têm sucesso a conduzir grupos de I&D) e, frequentemente, traz uma perda adicional explicada pelo Princípio de Peter: perde-se um bom filósofo para ganhar um mau gestor.

 

P.S. sobre a fotografia

Sair do laboratório para o terreno é um dos grandes passos da I&D e que representa uma etapa chave de validação de um projecto. Há sempre surpresas… umas melhores do que outras e por isso os primeiros ensaios de campo de cada projecto são inesquecíveis.

 

 

 

 

Nota final

Este artigo faz parte de uma série (em construção) de que já foram publicados os dois primeiros:

  1. Uma era a.MG e outra d.MG
  2. Os novos Descobrimentos: Portugal como plataforma giratória de I&D
  3. A I&D portuguesa perdeu a vergonha de falar em dinheiro
  4. As empresas perderam  o medo de bater à porta da I&D
  5. A UE é o ecossistema óbvio para a I&D de primeira classe
  6. Os planos sectoriais, no tempo, no espaço e nos temas são positivos
  7. Os motores dos I&Dealistas: serviço, unicidade e liberdade
  8. Optimista ou pessimista? Facto: estamos mmmuuuuuuuuuiiiiiiiiiiiitooo melhor do que estávamos
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2 responses to “A I&D portuguesa perdeu a vergonha de falar em dinheiro

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