Será que (ainda) preciso de uma reflex?

16 de Junho de 2017, Montemor-o-Novo, Portugal

No ano de 1996 fiz a minha primeira viagem ao Brasil e, preparando-nos para esse acontecimento, eu e a minha mulher comprámos uma máquina reflex Nikon com autofoco (com filme de 35mm, claro!).  Foi tão cara que tivemos medo de estragá-la e acabámos por deixá-la em Portugal, levando connosco uma Praktica BX-20 que tinha reputação de ser um autêntico tanque de guerra. Esta decisão revelou-se sábia porque a Praktica ficou inundada de água salgada numa travessia de barco ao quinto dia da viagem, depois de nos garantirem que o compartimento do barco onde a guardáramos era “totalmente seguro”. Ainda fotografou mais dois dias mas os cristais de sal, uma vez secos, bloquearam as lâminas do obturador. Tivemos de comprar uma máquina compacta para terminar as férias, e esta custou-nos os olhos da cara. Fazendo jus à sua reputação, a Praktica chegou a Lisboa, foi entregue em boas mãos (obrigado Amândio!) e, depois de limpa, voltou a funcionar como um relógio.

Desde então nunca mais atravessei o Atlântico nem fiz qualquer viagem grande sem levar comigo uma reflex autofoco com várias objectivas intermutáveis. Até ao mês passado.

Voltei ao Brasil para uma conferência que decorre de dois em dois anos e de que já falei e, por razões de conveniência, decidi só levar uma compacta. É certo que eu sabia à partida que não teria tempo para visitar as cataratas de Iguaçu que são o maior chamariz fotográfico da região, mas ainda assim hesitei antes de dar esse passo.

E regressei surpreendido e satisfeito com a minha decisão: não só não senti falta da reflex, como saboreei o descanso de não ter de me preocupar com ela nos aeroportos, nos hoteis, nos ônibus. Fiz todas as fotografias com uma compacta de boa qualidade (Panasonic DMC LX-7) que uso quotidianamente como bloco de notas.

Foi então que me interroguei: será que ainda preciso de uma reflex?

A primeira observação é fácil de fazer: basta olhar para os arquivos de fotografias e perceber quando e como uso a compacta e a reflex. E os hiatos de uso da reflex são de meses enquanto a compacta sai à rua quase todos os dias. Também é verdade que quando a levo à rua, a reflex tira centenas de fotos.

A observação seguinte era perceber se as minhas fotografias tinham mudado. As minhas fotografias profissionais mudaram sim, e mudaram para melhor porque consigo introduzir a compacta em pequenos espaços para fotografar detalhes e onde nunca conseguiria posicionar uma reflex e faço melhores modos macro e sem flash (uma das minhas necessidades é fotografar pequenas chapas com números de série). Já as fotografias de lazer não mudaram assim tanto e, mesmo nos casos em que mudaram, não estão necessariamente piores.

Então para que me serve hoje uma reflex? Pensei em vários cenários: nocturnos, focais longas, prioridade ao diafragma,

Nocturnos

Em 14 de Novembro de 2016 ocorreu uma super-lua bem visível em Lisboa. Claro que não desperdicei a oportunidade de passar um serão fotográfico. Não tendo eu grande experiência de fotografia astronómicas, estas ocasiões (e os eclipses) valem mais pela aula prática de fotografia do que pelos resultados fotográficos (que só excepcionalmente publico). Nessa ocasião, usei as duas máquinas lado a lado e introduzi uma “invenção”: usei um telescópio infantil como “amplificador de focal” das duas câmaras. Apresento alguns resultados a seguir e, sabendo que a relativa inépcia do fotógrafo é igual em todas as fotografias,  não noto que as fotografias da reflex sejam visivelmente melhores do que as da compacta.

Mas se a lua é um caso especial, também as paisgens nocturnas são parecidas embora o ruído (a que antigamente chamávamos “grão”) seja pior na compacta.

Focais longas

Esta compacta tem um zoom equivalente a 24-90mm no formato 35mm. 3.8x não é nada de extraordinário. Há outras compactas com zoom de 20x ou superior. Mas o preço a pagar seria a perda da luminosidade da lente que passaria de aberturas máximas de 1.4-2.3 para 3.3-6.4 (exemplo para a Panasonic DMZ-TZ80 de 30x de zoom), ou seja mais de 3 stops de redução na grande angular (equivalente a menos de 1/8 da luz) e mais de 4 stops de redução na tele-objectiva (equivalente a menos de 1/16 da luz). É um preço demasiado caro a pagar pela ampliação.

Foi para mitigar esse preço que resolvi experimentar com o telescópio de brincar. Não serve para ir para o terreno mas dá para alguns casos fixos como fotografar a lua ou pormenores numa cidade. As aberrações cromáticas são… aberrantes e só se aproveita a fóvea, mas as imagens têm um ar vintage divertido. É como fazer lomografia: o que importa é a mensagem não a qualidade fotográfica.

Há um outro argumento a ajudar as reflex digitais contra as compactas: a maioria destas máquinas têm sensores mais pequenos do que a definição padrão do filme de 35mm (24 x 36mm) com uma elevadíssima densidade de pixels. Isto significa que uma lente de 100mm no formato 35mm apresenta imagens que correspondem a distâncias focais “ampliadas” de um factor entre 1,2 e 2,5. Actualmente, os valores mais comuns são entre 1,3 e 1,6 (a minha Nikon D90 tem um factor de 1,5).

As imagens seguintes mostram isto na prática. Trata-se de aviões da família A330 em na aproximação a Lisboa fotografados sempre do mesmo local, a cerca de 3,5km. Quase todas as diferenças de tamanho são atribuíveis às câmaras (sensor + objectiva) visto que os aviões seguem sempre a mesma rota e, nesta fase, as variações de rota já são inferiores a uma centena de metros.

Todas as imagens têm a mesma dimensão em pixels e todas sairam da câmara com ajustes automáticos. Por trás da imagem em tamanho de visualização na página está a imagem na dimensão original.

A primeira fotografia foi tirada com a Panasonic DMC LX-7, com a distância focal máxima de 17.7mm que corresponde a 90mm no formato de filme 35mm.

A segunda fotografia foi tirada com uma Nikon D90, com objectiva de 300mm. Dado o factor de ampliação corresponde a uma distância focal equivalente de 450mm em filme de 35mm, ou seja 5 vezes a ampliação da compacta.

Finalmente, a terceira fotografia recorre a um truque muito velho da fotografia analógica: o duplicador de focal. Trata-se de uma lente correctiva que duplica a ampliação da objectiva a expensas da luminosidade e nitidez (também havia multiplicadores de 1,4x mas como eu só tinha dinheiro para comprar um, atirei-me logo ao maior!). Esta imagem corresponde a uma ampliação de 900mm, 10 vezes o tamanho da compacta LX-7!

Visto isto, nas focais longas, sobretudo com objectivas com estabilizador óptico de imagem que permitam salvar alguma nitidez, a reflex ainda tem uma vantagem substancial sobre a compacta. Falta-me experimentar com uma compacta de zoom 30x o que permitiria cobrir a gama entre a minha compacta com 28mm de distância focal mínima e os 900mm equivalentes de focal máxima alcançados com com 1.5x ampliação do sensor x 300mm objectiva x 2 duplicador de focal.

Prioridade ao diafragma

A presença de um anel de diafragma foi a característica que me levou a escolher a LX-7 de entre todas as outras compactas comparáveis. É algo de “retro” ou até infantil, mas de que tenho saudades das Praktica e Pentax com foco manual e que mesmo nas reflex digitais não consigo substituir com os discos rotativos da frente e de trás. Não há nada como um anel. O ideal seria que além do anel de diafragma a LX-7 também tivesse o zoom manual, mas isso é sonhar demais.

E embora na maior parte das vezes use o modo “P” (=Program), quando quero manipular a profundidade de campo, a compacta com o seu anel é muito mais ágil do que a reflex, mesmo que só se veja o resultado depois de tirar a fotografia.

Portanto, na manipulação do diafragma a vantagem do desempenho é da reflex, cujas lentes têm maior gama de variação de profundidade de campo mas a vantagem da ergonomia é da compacta com o seu anel.


Olhando para os três cenários, trocar a reflex pela compacta é só vantagens excepto nas focais longas e num outro aspecto frustrante: estas compactas modernas têm baterias pequenas, não têm visor óptico e têm grandes écrans com grande resolução. O resultado é um consumo louco de bateria. Uma autonomia de 200 fotografias seria uma festa, enquanto na reflex posso tirar mais de mil fotografias sem me preocupar com a bateria.

E pode um telemóvel substituir uma reflex?

Se dei o primeiro passo de preterir a reflex em favor da compacta, será que devo dar o passo seguinte? Vários amigos, alguns deles mais dotados para a fotografia do que eu, já trocaram as máquinas fotográficas por telemóveis. É verdade que é conveniente para as fotografias técnicas que me levaram primeiro à compacta (embora os telemóveis exijam muito frequentemente flash, o que impede o seu uso em muitos casos) mas mesmo com boas objectivas dos telemóveis Nokia Lumia de gama alta eu fico frustrado com a qualidade fotográfica: é óptima num dia de sol, mas mal a luz se atenua, o telemóvel claudica.

À pergunta, “e pode um telemóvel substituir uma compacta” respondo que depende da compacta: um telemóvel não substitui uma compacta desenhada para substituir uma reflex. Portanto, ando com a compacta na mochila ou no bolso ou presa ao cinto, para isso a escolhi leve e compacta.

Este uso quotidiano de uma boa máquina fotográfica tem sido um manancial de bons instantâneos, alguns desses prazeres inesperados passam aqui como o simpático insecto que abre este artigo e que encontrei num velho candeeiro de petróleo e que devolvi ao mundo exterior depois de lhe pedir um retrato.

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