Os novos descobrimentos: Portugal como plataforma giratória de I&D

19 de Maio de 2012, Urbino, Italia

Segundo artigo da série

Notas sobre investigação, Desenvolvimento e Inovação em Portugal

O Dia Nacional dos Cientistas celebrou-se pela primeira vez a 16 de Maio de 2017. A data escolhida coincide com a data de nascimento de José Mariano Gago (n. 1948, m. 17-04-2015). Foi engenheiro, cientista, divulgador, político e ministro da Ciência de Portugal durante mais de onze anos. O primeiro artigo desta série foi sobre a minha visão do papel de Mariano Gago na Ciência e tecnologia em Portugal e associo-me modestamente a esta celebração, publicando o segundo artigo.

A seguir ao 25 de Abril e, sobretudo, a partir da era d.MG, Portugal passou a ser uma plataforma giratória de amadores de I&D. Note-se que uso “amador” no sentido literal do termo “aquele que ama”, “aquele que exerce uma actividade por amor”.

Há estudantes e professores estrangeiros que vêm para cá, há estudantes e professores portugueses que vão para lá. Há engenheiros e projectos que se radicam cá, outros há que estando baseados lá fora recorrem a equipas e capacidades localizadas em Portugal. Há até projectos multi-territórios que dependem de trabalhos coordenados em diferentes países para funcionar.

Tudo isto é muito bom. Desde o Renascimento que sabemos que não há melhor forma de aprender do que partilhar conhecimento e Portugal estava há décadas – para não dizer há séculos – apartado (dizer que estava isolado seria excessivo) do fluxo de conhecimento mundial. O Cosmopolitismo é ideal para a melhoria da cultura científica e até do saber puro e duro.

O saber é um VALOR que tem uma propriedade que nenhuma mercadoria tem: uma pessoa que entrega saber (=VALOR) a outra pessoa, não só não o perde como, na maioria dos casos, ganha uma camada adicional de saber ao ouvir a segunda pessoa relatar os resultados que obteve usar esse saber. Portanto, o valor total do saber é tanto maior quanto mais difundido estiver!

Michael Athans é um exemplo deste cosmopolitismo que conheci de perto. Emigrou ainda adolescente da Grécia para os Estados Unidos para um intercâmbio de um ano, onde o nome Athans lhe foi atribuído na imigração porque o original (Athanassiades) era demasiado complicado e este remetia para o seu porto de origem, Atenas. Atendendo ao seu talento, progrediu na carreira académica nos EUA, primeiro em Berkeley, California, depois no MIT, Massachussets. Em 2000, já professor emérito, veio colaborar como Visiting Professor do Instituto de Sistemas e Robótica no Instituto Superior Técnico [ISR/IST], à época da Universidade Técnica de Lisboa, hoje Universidade de Lisboa. A sua página no ISR ainda se mantém. Embora a especialização dele seja a Teoria do Controlo, a contribuição que quero destacar é um artigo de política pedagógica de 2001 intitulado “Portuguese Research Universities: why not the best?“. Qualquer que seja a posição que se tenha em relação às propostas apresentadas (e muitas delas tiveram acolhimento no Ministério da Ciência e Tecnologia de Mariano Gago) o que mais me impressionou foi a capacidade de absorção de uma pessoa que cresceu na cultura grega, absorveu a cultura americana e regressou à Europa para trazer a fusão das duas culturas. Ouvi-lo primeiro e lê-lo depois nesse artigo, foi um choque e ao mesmo tempo uma injecção de novidade, ao fazer-nos ver a realidade sob pontos de vista opostos. Quando à época nos queixávamos que o Técnico tinha escassez de assistentes, aparece-nos um estrangeiro bonacheirão a dizer “You have too many! Kick them out!” (“Têm demasiados. Chutem-nos daqui para fora.”).

O cruzamento de cientistas estrangeiros que encaminha por Portugal parte dos seus percursos académicos, ou até aqueles que escolhem radicar-se cá e constituir família, também traz novas oportunidades de aprendizagem. Trazem uma cultura diferente e esforçam-se por combiná-la com o contexto existente para extrairem o melhor de ambas. E é muito curioso ver como um iraniano, um ucraniano ou um islandês combinam as suas culturas e referências com o modo de fazer ciência em Portugal. Eu também passei por isso por períodos curtos e confesso que me foi muito mais fácil integrar-me no modo belga de fazer ciência do que no modo bávaro (e avisaram-me que a Baviera era a mais “latina” das culturas científicas alemãs). No regresso da Bélgica, fui convidado para diversas recepções informais na Embaixada da Bélgica em Lisboa onde trocávamos experiências e era divertido ouvir outros portugueses e outros belgas a salientarem exactamente os mesmos pontos de “surpresa” e “incompreensão” diante do modo de fazer ciência no “outro” país. E não me lembro de ninguém que tenha dito que preferia não ter passado pela experiência.

Os exemplos dos programas de intercâmbio estudantis como ERASMUS, a IAESTE e o BEST são por demais conhecidos e nem vou falar deles.

Simetricamente, os investigadores portugueses no estrangeiro reúnem-se e procuram “melhorar” ou até “revolucionar” a ciência que se faz em Portugal a partir da sua experiência lá fora. Em tempos houve o Fórum de Investigadores Portugueses e hoje há o Fórum de Graduados Portugueses no Estrangeiro e uma associação muito activa no Reino Unido: a PARSUK. O objectivo é comum: não só apoiarem-se e estreitarem laços entre si porque partilham elementos comuns de cultura e referências científicas como também puxar pelo país que deixaram mas onde ficaram as suas raízes. Puxando a brasa à sardinha do ISR/IST,  os Prof. Fonseca de Moura e Manuela Veloso na Universidade de Carnegie Mellon, Pensilvânia, foram verdadeiros embaixadores e mercadores de saber entre Lisboa e Pittsburgh e o resto dos EUA. Hoje é com alegria e sem paternalismo ou condescêndencia que vejo professores estrangeiros em Portugal que já desempenham esse papel em relação aos seus países de origem.

Mais recentemente, apercebi-me que até os governos e a União Europeia favorecem esta troca de saberes nos apoios a programas e projectos de I&D. Se a princípio se poderia pensar que estavam a tentar cerzir um espírito europeu, percebe-se agora que a diversidade de nacionaldades é “remunerada” com melhores pontuações nas candidaturas de tal forma a que chega a desvirtuar-se um consórcio apenas para conseguir mais uns pontos nos critérios de diversidade.

Em conclusão, é esta confusão (uma almofala ?) de saberes, sabores (a nova canela, pimenta e noz moscada?),  dialectos e sonhos faz com que Portugal cresça mais depressa e melhor, aprendendo com os erros dos outros e descobrindo mais pistas paralelas de resposta a cada pergunta. Qualquer esforço para compartimentar, erguer barreiras ou criar bairrismos não só vai contra o sentido da história da ciência como enfrenta a maior força motriz dos cientistas: a curiosidade.

P.S. sobre a fotografia

Urbino é uma cidade italiana sonhada por Felipe de Montefeltro, duque entre 1444 e 1482, e que a desenhou para o homem renascentista, saudável, eficiente, dedicado ao saber e à arte.

Nota final

Este artigo faz parte de uma série (em construção) de que já foram publicados os dois primeiros:

  1. Uma era a.MG e outra d.MG
  2. Os novos Descobrimentos: Portugal como plataforma giratória de I&D
  3. A I&D portuguesa perdeu a vergonha de falar em dinheiro
  4. As empresas perderam  o medo de bater à porta da I&D
  5. A UE é o ecossistema óbvio para a I&D de primeira classe
  6. Os planos sectoriais, no tempo, no espaço e nos temas são positivos
  7. Os motores dos I&Dealistas: serviço, unicidade e liberdade
  8. Optimista ou pessimista? Facto: estamos mmmuuuuuuuuuiiiiiiiiiiiitooo melhor do que estávamos

 

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2 responses to “Os novos descobrimentos: Portugal como plataforma giratória de I&D

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