Um risco na avenida

13 de Janeiro de 2017, Lisboa, Portugal

Uma das funções principais da direcção ou da administração em sentido lato é a antecipação das ocorrências negativas e o planeamento atempado de medidas de redução de falhas (melhor) ou de mitigação das suas consequências (menos bom). Para tal, é importante saber identificar os riscos e os nexos de causalidade que criam uma cadeia entre as causas primeiras e os efeitos últimos. É também importante saber avaliar os riscos e tomar medidas de custo proporcional.

Um dos modelos mais simples e mais comuns de estimação de risco por uma única causa imediata “i” é o produto da probabilidade de ocorrência de uma falha pela severidade (ou custo) da ocorrência pelo tempo de exposição:

Ri = Pi * Si * Ti

Para reduzir um risco, em abstracto, é possível actuar sobre qualquer dos três factores. Na realidade, nem sempre é assim: se há um risco associado às deslocações casa-trabalho pode ser difícil reduzir ou eliminar esses tempos de exposição sem perder o emprego. Já a severidade é normalmente passível de mitigação através de medidas de protecção individual ou de grupo (luvas para tarefas perigosas, vacinas para doenças ou pára-choques nos automóveis). A redução da probabilidade da ocorrência depende muito dos agentes e suas decisões e capacidades: um profissional experiente efectua tarefas que para um amador se afiguram insuportavelmente arriscadas (ex: a construção e manutenção de linhas de alta tensão).

Sendo isto tão simples, tão chão, fiquei perplexo ao atravessar a Avenida da República em Lisba num destes dias soalheiros de Inverno. A Câmara Municipal de Lisboa [CML] decidiu rearranjar as faixas de circulação e o cruzamento com a Av. Miguel Bombarda e faz parte do plano um candeeiro de iluminação pública em pleno cruzamento. Não seria uma medida óbvia de redução da probabilidade de acidente deslocar o dito candeeiro 3 m para fora da faixa de rodagem tal como na Av. João Crisóstomo, a artéria paralela? Se o objectivo é reduzir uma faixa de rodagem, não seria melhor fazê-lo com um piso “rugoso” e desconfortável para os automobilistas em vez de pôr um cilindro de aço de 20 metros e algumas toneladas diante deles? Como é possível aprovar um projecto com um acréscimo de risco tão injustificável? Será que algum responsável fez uma análise de risco?

Como não gosto de escrever posts só pelo prazer da maledicência, convido a CML a instalar câmaras nos cruzamentos das Avenidas Miguel Bombarda e João Crisóstomo e fazer – e publicar! – o estudo comparativo de sinistralidade, morbilidade e (espero que não chegue a tanto!) mortalidade dos candeeiros de iluminação pública nos dois cruzamentos. Talvez sirva  para uma boa aula de análise de risco…

Nota de técnica fotográfica

Procurei eliminar todos os efeitos de perspectiva, sendo evidente a perspectiva cónica com ponto de fuga no centro da imagem. Observando em pormenor a faixa mais à esquerda do conjunto de três faixas, é evidente que o alinhamento desta “passa” (ou pior, fica!) na coluna de iluminação pública:

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