Onze anos sem Semiramis

Há onze anos exactos, contados desde o dia 2 de Fevereiro de 2006, que não há posts novos no Semiramis. Era o blog mais interessante que eu seguia. Sob o título Semiramis encontrava-se o programa “político” do blog: Irreflexão política, social e económica.

Era animado por posts quase diários assinados por uma Joana, pseudónimo de uma provável autora individual que escrevia sobre política com um ponto de vista liberal e por vezes irónico, mas sem se fixar no registo de escárnio e maldizer que se tornaram banais. Era comummente definido como “um blog de direita”, e penso que a autora se revia nessa definição (há um post sobre o political compass em que ela se posiciona), mas, mais importante do que esse alinhamento no semi-círculo parlamentar, era o seu desalinhamento geral e liberdade de escrita.

Quando cessaram os posts, vários comentadores sugeriram “teorias” mais ou menos nebulosas para o silêncio, até que alguns comentadores que diziam conhecer a autora explicaram que a causa resultava do mais humano dos factos: um falecimento. Na altura, a blogosfera era tão jovem que a morte de um blogger parecia tão incrível como a de uma criança numa sala de aula, mas parece-me que a explicação mais simples é também a mais plausível.

Rapidamente se levantou um coro pedindo ao portal AEIOU, que alojara o blog em semiramis.weblog.com.pt, que o guardasse. Hoje já não está disponível, mas existe um arquivo em semiramis.etc.pt.

Porque destaco este blog no meio de tantos outros? Por seis motivos:

  1. O prazer diário da novidade: era bom chegar a casa e ter um pequeno jornal vespertino para ler. Nem todos os posts eram grandes, alguns eram mesmo breves, mas havia quase sempre algo que ler, saborear e pensar.
    Tendo sido lançado em 1 de Outubro de 2003, a partir de uma recolha de posts provavelmente vindos de outro sítio, terminou 855 dias depois com cerca de 1500 posts publicados.

  2. A variedade de temas e de tons. A maioria andam à volta da política, da história, da filosofia e da economia, mas com um distanciamento que nos permite separar o que é substantivo da “espuma dos dias” que se desvanece com um sopro. Uns são escritos num tom sisudo e académico enquanto outros nos piscam o olho (por exemplo: os reis magos vistos à luz dos discursos económicos actuais).

  3. A profundidade de análise a extensão de alguns posts. O formato de post não se presta a textos longos e a maior parte dos autores reflecte isso na sua escrita. Há alguns blogs que têm posts longos porque cada post é uma “reformatação” de um artigo, ensaio ou texto vindo de outra origem, mas raramente se escreve originalmente assim. Até eu tenho essa dificuldade e acabo por resolver o problema dividindo os posts grandes em secções que vou terminando progressivamente. A Joana também recorreu a este método – por exemplo, na série “Os Idos de Março de 44 a.C” – mas na maioria dos casos ela escrevia uma longa coluna com ideias pensadas, fundamentadas, bem expostas e sem qualquer “lero-lero” que nos levasse a pensar que estava a escrever a metro.
    A título de exemplo, lembro textos sobre Marx, Aron e Sartre.

  4. A qualidade do texto é notável e muito acima do que se encontra na blogosfera. Naturalmente, havia gralhas tipográficas e uma discordância de género ou de número aqui e ali, mas percebia-se que a autora era muito dextra no manejo da língua.

  5. Porque era um esforço individual! Como era possível uma pessoa manter tal produtividade e qualidade, extraída entre actividades profissionais, pessoais e familiares se o dia dela tem as mesmas 24 horas que o meu e o de todos os outros?

Deixo para o fim o mais importante para mim: os diálogos que se travavam nos comentários eram deliciosos e uma verdadeira “tertúlia virtual”. Havia muitos comentários inúteis ou maliciosos mas uma parte significativa dos comentários acrescentava valor ao blog, aduzindo novas informações ou referências, apoiando ou rejeitando as posições da autora, mas eram maioritariamente escritos com o mesmo tom cordial e curial que ela usava. Ela mesma fomentava o diálogo com réplicas e tréplicas, sendo algumas sequências de comentários autênticos posts escritos a muitas mãos.

Não era preciso concordar ou discordar da Joana para desfrutar da leitura do Semiramis. Bastava ter gosto em aprender e em considerar os pontos de vista alheios.

Ao contrário do que se vê hoje, em que o antagonismo é o princípio motor das caixas de comentário (quem não é por nós, é contra nós) e onde até há polegares para cima e para baixo como no circo de Roma para enviar uns para a glória e outros para os leões, no Semiramis havia uma espécie de dança colectiva em que cada interveniente procurava seduzir os outros pela qualidade dos argumentos e da forma de os expôr. Estamos muito mais perto do amor cortês e do wit dos salões e cafés onde se trocam ideias do que da má-língua, da indústria dos “conteúdos” comprados e das troupes de fiéis, apaniguados ou acólitos, que investem sem pensar, convencidas que pensar é mau porque quem pensa, questiona-se, e é no pensamento e na dúvida que estão as sementes do mal.

Não estão, estão as sementes do génio Humano, o saber e aprendizagem são feitos de contraditório, e do prazer da divagação intelectual – um serendipity colectivo – que nos remete para os diálogos de Galileu e as trocas epistolares da Renascença ao Iluminismo. Esse é o grande prazer que me falta desde há onze anos… e se comecei Almofala, foi também por causa das saudades da Joana, onde quer que ela esteja.

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