Notas sobre investigação, desenvolvimento e inovação em Portugal

20161126_luzcircular26 de Novembro de 2016

Há muitos textos e referências sobre a evolução da Ciência em Portugal. Um dos mais recentes e acessíveis foi escrito por Carlos Fiolhais, físico da Universidade de Coimbra que, no livro no livro “A Ciência em Portugal” da Fundação Francisco Manuel dos Santos [1], faz um registo quantitativo e fundamentado dos vários aspectos do ecossistema de Investigação e Desenvolvimento em Portugal nas últimas décadas.

Recentemente, em conversa com colegas e jornalistas, dei por mim a organizar mentalmente algumas notas impressivas da evolução da Investigação e Desenvolvimento [I&D] em Portugal. Não era meu objectivo substituir referências sólidas e fundamentadas em estatísticas ou programas oficiais mas apenas passar a escrito as impressões de um modesto “artesão” deste ofício.

Como este assunto deu azo a um texto muito mais longo do que o normal, decidi dividi-lo por temas e organizar os temas de forma a ter em cada artigo um par de temas mais próximos:

  1. Uma era a.MG e outra d.MG
  2. Os novos Descobrimentos: Portugal como plataforma giratória de I&D
  3. A I&D portuguesa perdeu a vergonha de falar em dinheiro
  4. As empresas perderam  o medo de bater à porta da I&D
  5. A UE é o ecossistema óbvio para a I&D de primeira classe
  6. Os planos sectoriais, no tempo, no espaço e nos temas são positivos
  7. Os motores dos I&Dealistas: serviço, unicidade e liberdade
  8. Optimista ou pessimista? Facto: estamos mmmuuuuuuuuuiiiiiiiiiiiitooo melhor do que estávamos

1. Uma era a.MG e outra d.MG

Em primeiro lugar, penso que o mais importante a registar é que há uma era a.MG e d.MG, ou seja “antes de Mariano Gago e depois de Mariano Gago”. Pelo que já li, calculo que também tenha havido uma era “a.FCG” e “d.FCG” para “antes de Fundação Calouste Gulbenkian” e “depois da Fundação Calouste Gulbenkian” mas já não é do meu tempo, já só a senti indirectamente, através de familiares que tentaram e conseguiram (uns sim, outros não) obter bolsas de estudo em França.

E há indicadores simples e curiosos sobre e reconhecimento da importância do seu trabalho. Recordo apenas dois indicadores mensuráveis:

  • Foi o ministro com mais dias de serviço após o 25 de Abril de 1974 e sempre com a mesma pasta (embora ela tenha mudado um pouco de nome).
  • Nos idos de 1990, quando a política quotidiana era objecto do humor do programa Contra-Informação, foi o único ministro que nunca teve um boneco, porque a sua actuação era tão sóbria, tão longe dos disparates, tão positiva e tão eficaz, que os autores dos textos humorísticos diziam que “não tem ponta por onde se lhe pegue”. E seria fácil caricaturá-lo fisicamente : por trás de uns óculos espessos tinha uns enormes olhos azuis míopes que nos olhavam como se fossemos o objecto de uma experiência e lhe davam um ar de cientista velhinho e amável, eternamente debruçado sobre ratinhos e tubos de ensaio.

E mais um indicador não-mensurável: era um ministro que circulava na rua sem segurança nem formalidades – vivia em Lisboa e gostava de ir a pé tomar café ao Chiado e descer até à Baixa – e contactava directamente as pessoas que se lhe dirigiam para falar do trabalho do seu ministério e para lhes comunicar o entusiasmo que o animava.

De entre os muitos aspectos que melhorámos durante os mandatos de Mariano Gago como ministro  (e nos 2 anos que interrompeu o seu trabalho nos governos Durão Barroso e Santana Lopes, a sua substituta, Mª da Graça Carvalho, também colega dele no IST, fez os possíveis para não estragar nada) destaco:

  1. Avaliação das unidades de I&D por estrangeiros. Os avaliadores não são necessariamente melhores por serem estrangeiros. Aliás, a unidade em que eu trabalhava foi uma vez avaliada por indivíduos que eram autênticos turistas da robótica. São mais importantes porque trazem novidade; pontos de vista diferentes e obrigam as equipas locais a justificar o que fazem. São uma espécie de “polinizadores” do conhecimento. São também importantes porque são INDEPENDENTES dos grupos locais, porque não têm sistemas de compensação e benefícios mútuos: eu dou-te boa nota a ti e depois tu dás-me boa nota a mim.
  2. Fusão entre Ciência e Cultura. Durante anos, o pessoal de I&D passeou a sua importância afirmando que a Ciência e a Tecnologia eram a única coisa que interessava ao futuro de Portugal e que dava “rendimento” ao País (falava-se muito do “progresso”). O resto era dinheiro mal empregue. Pois demonstrou-se o contrário: a I&D de ponte entre Ciência, Economia, História, Sociedade, Artes mostrou o seu valor e teve um grande desenvolvimento. Foz Côa, o trilho de dinossauros da pedreira do Galinha, as pintura do José de Guimarães e o viaduto de Carenque da CREL são testemunhos dessa “hibridação”. Sobre este tema
  3. A Ciência e a Cultura são para todos. Contrariando séculos de elitismos, os programas Ciência Viva e Ciência no Verão, as Olimpíadas da Matemática, etc., difundiram a ciência e cultura por todas as idades, território e níveis económicos e têm feito mais pela melhoria da cultura científica portuguesa do que anos de textos aborrecidos nos manuais do ensino secundário.

Sobre o tema da fusão da ciência e da cultura, é justo referir também o papel percursor do Prof. Manuel Abreu Faro – professor e amigo de Mariano Gago – que à frente do Instituto de Alta Cultura (196-197 ), no lançamento do Complexo Interdisciplinar e do Instituto de Física e Matemática procurou fomentar essa fusão.

O surgimento de uma sociedade mais próxima da Ciência e a acção de Mariano Gago na extensão desta familiaridade a  toda a sociedade aceleraram alterações sociais comuns a outros países desenvolvidos e constituem sinais de modernidade:

  1. Introdução de elementos do método científico no quotidiano. Os discursos e actividades passaram a ser justificados com elementos do método científico: a publicidade justifica-se por estudos que afirmam que este produto melhorou X % ou que há Y % de consumidores satisfeitos.  As decisões de consumo e de investimento são baseadas em testes e estudos e números. A política justifica-se por relações causa e efeito e afere-se por estatísticas. O desporto desdobra-se em análises combinatórias e cruzamento de factores que concorrem para um resultado. A justiça pede análises e perícias. Em todas as actividades se pede provas, métricas e indicadores.
  2. Introdução de linguagem científica no quotidiano. Ao criar-se um patamar mínimo de literacia científica na população, o discurso quotidiano importou termos científicos, quer como bordão de linguagem (e nesse caso é frequentemente despropositado), quer como efeito retórico de reforço de autoridade. Palavras como “adn”, “alavancar”, “autista”, “catalizador”, “centrípeto”, “darwinismo”, “dopante”,  “epidemia”, “esquizofrenia”, “exponencial”,  “gradiente”, “hibridação”, “multi-tarefa”, “osmose”, “simbiose”, “viral”, são hoje comuns fora dos domínios científicos em que surgiram.
  3. Melhoria do discurso informal sobre ciência. Os não cientistas que falam sobre ciência desde os pais nas reuniões escolares até aos políticos, sentem necessidade de “ter umas luzes” ou “ler umas coisas” para estarem ao nível dos seus pares. Até os “pseudo-cientistas” que procuram enganar as pessoas tiveram que fazer um “upgrade” de discurso para não serem desmascarados. Como dizia o António Aleixo “para a mentira ser segura e alcançar profundidade tem de trazer à mistura qualquer coisa de verdade”.
    O esforço de qualificação de Mariano Gago foi secundado por um livro de António Manuel Baptista [2] que “fez mossa” na época.

 

Anúncios

2 responses to “Notas sobre investigação, desenvolvimento e inovação em Portugal

  1. I considered this was a actually superior blog post. I normally like reading content articles similar to this one. I should undergo more within your posts.

  2. Pingback: Os novos descobrimentos: Portugal como plataforma giratória de I&D | Almofala·

Os comentários estão fechados.