O diafragma ofuscado

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7 de Novembro de 2015, Mont Saint-Michel, Manche (Normandia), França

Quando comecei a interessar-me por fotografia para lá da observação da imagem impressa – no início da década de 199… – o diafragma era o primeiro conceito que permitia distinguir o completo “nabo” de um ignorante interessado em aprender.

Aliás, eu já me tinha interrogado sobre o tema uns 15 anos antes quando a minha Mãe me deu a primeira máquina fotográfica: uma Ferrania 3M Veramatic de formato 126. A minha era verde e cor de rosa (ver exemplo) e a minha irmã recebeu uma câmara igual em laranja e azul (ver exemplo). Fiquei encantado: tinha uma bolsa beige por fora e vermelha por dentro e era totalmente manual: tinha uma sapata para um flash de cubo de quatro descargas (acho que só usámos uma ou duas caixas de 5 cubos em toda a nossa vida), e apenas três actuadores: um disco serrilhado ligado ao enrolador de filme, o botão de disparo e uma única regulação: sol ou sombra.

Abri-a e experimentei-a sem filme e percebi imediatamente: com a regulação de sol, o buraquinho que deixava passar a luz é pequenino, e com a botão na posição “sombra” o buraquinho fica maior.

Deixando a linguagem das crianças, o botão actuava uma alavanca em que o diafragma fixo de sombra era sobreposto por um outro de menor diâmetro com a regulação “sol”. O obturador situava-se imediatamente atrás no ponto focal, ao contrário das reflex que têm os obturadores no plano da imagem e por isso o botão de disparo também se situava logo acima da objectiva.

A objectiva era de 40mm, quase equivalente à mesma focal em formato 35mm, com diafragma máximo f/8. Guardo dessa máquina poucas fotos e acima de tudo, a memória do conceito: uma objectiva é um funil de luz: quanto mais estreito o gargalo, menos luz passa a cada instante. Foi assim que aprendi o que é o diafragma sem saber sequer o seu nome: era o gargalo do funil!

Regressando à década de 199…, quando comprei a minha primeira reflex esta tinha contactos que comunicavam a abertura escolhida entre a objectiva e o corpo: uma vez regulada a sensibilidade do filme (ainda sem código DX) no início de cada rolo, bastava regular o diafragma e olhar para o visor ocular para ver a medição do fotómetro. Se usasse o modo semi-automático (também chamado “prioridade ao diafragma”) a máquina escolhia o tempo de obturação (ou velocidade). Se preferisse o modo manual, podia sub ou sobre-expor a fotografia a meu gosto.

Nas primeiras etapas , a ambição do aprendiz é tão-só obter uma fotografia nítida mas, mais adiante, começa-se a querer modular a expressão da mensagem a comunicar regulando a profundidade de campo e isso faz-se com o diafragma.

Hoje, muitas compactas digitais perderam o diafragma variável e as máquinas que os mantém (incluindo as reflex) dão-lhe pouca importância. Os modos clássicos “P, S, A, M”* perderam importância para os modos “inteligentes” de “paisagem”, “crepúsculo”, “retrato”, “neve”, “animais de estimação”, “desporto”, etc..

Mesmo eu, que aprendi a importância do “funil”, dou por mim a fazer mais de 90% das fotos em modo “P”. E em algumas dessas fotos (talvez uma em vinte…) dou por mim a pensar: se eu tivesse escolhido o diafragma, isto teria ficado melhor.

Por tudo isto, às vezes sou invadido pelas saudades, e brinco com a profundidade de campo com a focagem e com a velocidade de obturação.

diafragma aberto f/5.3 diafragma fechado f/36
focagem próxima 20151107_05_msmichel 20151107_04_msmichel
focagem distante 20151107_02_msmichel 20151107_03_msmichel

A escolha da profundidade de campo em função da distância de focagem é uma das melhores maneiras de evidenciar a importância do diafragma: para uma mesma exposição, a regulação consciente destes parâmetros permite mudar totalmente a mensagem. A título de informação complementar, as quatro fotografias foram tiradas com a mesma distância focal: equiv. a 75mm em formato 35mm; a mesma sensibilidade: equiv. a ISO 800; e (quase) o mesmo tempo de obturação: 3 fotos a 1/30 s e uma a 1/25 s. Portanto, em todas elas, é a mesma quantidade de luz que atravessa o funil, mas a mensagem é completamente diferente: na linha superior, a mensagem foca-se na técnica do vitral que fica a menos de 1 m de distância, enquanto na linha inferior se comunica a paisagem da Baía do Monte Saint-Michel na maré baixa onde a ilha está a 2690m de distância. Na coluna da esquerda só está nítido o plano principal; enquanto na coluna da direita vê-se o tema principal mas também o secundário: é esta a riqueza da profundidade de campo que hoje esquecemos porque

  1. vivemos com tanta pressa e respondendo a tantos estímulos que só olhamos para o tema principal e esquecemos o contexto  e
  2. as máquinas “preferem” os diafragmas abertos para melhorar a nitidez das fotografias receando os movimentos do fotógrafo ou do tema.

Qual é a percentagem de fotógrafos que anda com tripé? É semelhante àquela que acha que vale a pena pensar até que a fotografia surja primeiro no seu espírito e só depois no segredo da câmara escura.

Ver o contexto, de forma semelhante à que vêem os nossos olhos, é o prémio de quem fecha o diafragma e tem a paciência de esperar que a imagem se forme do lado de cá do buraco da agulha.


Há quase 100 anos, Ansel Adams , Edward Weston e outros amigos formaram o grupo f.64 ou f/64 (ver nesta página uma recensão de um livro sobre o tema) que afirmava que apenas um diafragma muito fechado teria a pureza** e qualidade para retratar realmente a realidade. Quando comecei a fotografar, as minhas reflex só chegavam a f/32 (quatro vezes a abertura de f/64) e agora há máquinas que não fazem melhor do que f/8. Mas também já pouco importa: já quase ninguém sabe o que é o diafragma.

Em duas décadas de fotografia digital, o diafragma foi ofuscado pela corrida ao número de pixels dos sensores e da sensibilidade, ou seja da qualidade da electrónica dos conversores analógicos/digitais. Hoje, não oiço ninguém perguntar “qual é a abertura da tua lente”, mas sim “quantos megapixels e quantos mil ISO tens?”.

* para os leitores não familiarizados com a nomenclatura

  • P é de “Program”, em que o tempo de exposição (também chamado velocidade do obturador) e diafragma são escolhidos pela máquina para obter a exposição adequada,
  • S é de “Shutter” em que o fotógrafo escolhe o tempo de exposição e a máquina procura regular o diafragma para obter a exposição adequada,
  • A é de “Aperture” em que o fotógrafo escolhe o diafragma e a máquina regula o tempo de exposição (tal como a minha primeira reflex) e
  • M é “Manual” em que o fotógrafo escolhe os dois parâmetros, assumindo a responsabilidade de os combinar para obter uma exposição adequada.

** o modelo teórico de formação de imagem é o de “buraco de agulha” (pinhole). Por isso, quanto menor for o diâmetro do “buraco da agulha” mais perto se estará da perfeição teórica do modelo de formação de imagem.

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