A fronteira da terceira dimensão

Das cercas às gaiolas … ou a vida num aquário … ou o regresso à floresta ?

Quando olhamos um mapa, seja ele de uma aldeia ou de um continente inteiro, um dos primeiros elementos que nos salta à vista são as fronteiras. Aliás, em muitos casos, basta a ausência dos contornos do território para nos desorientar e para perder a referência de onde nos situamos.

A noção de espaço público e espaço privado foi durante séculos codificada por muros, cercas e cursos de água que representavam uma barreira de separação entre dois lados de uma superfície. Quando alguém queria reforçar a sua protecção contra intrusos ou contra olhares e ouvidos indiscretos, alteava ou reforçava a barreira bidimensional. Em todos estes casos a fronteira define-se como um contorno em duas dimensões e o próprio espaço delimitado está definido em termos de superfície bidimensional.

Quantos romances se baseiam nas confidências que viajam por cima do muro, ou através das sebes ou como é difícil transpor uma muralha ou um rio e como as paredes são tudo o que nos separa da liberdade fora da prisão, fora do castelo ou fora do país; e como as invenções que ultrapassam fronteiras foram fundamentais no progresso da humanidade: pontes, escadas, torres móveis. É verdade que também se inventou o ariete para destruir as barreiras mas o génio humano sempre preferiu contorná-las, passando por cima ou por baixo.

Mais recentemente, a urbanização levou a que os espaços bidimensionais habitados se empilhem em três dimensões, levando à definição de fronteiras em 3 dimensões e que estas novas fronteiras se definam como caixas que encerram um volume tridimensional protegido. As portas e janelas servem de pontos de contacto entre o interior e o exterior, o privado e o público e esta relação é controlada pelos ocupantes do espaço privado. Mesmo nas fronteiras em caixas tridimensionais, as portas e, sobretudo, as janelas permitem a comunicação, senão mesmo a passagem de pessoas, entre o interior e o exterior sem grande oposição.

Qualquer pessoa curiosa e mantida à distância dos acontecimentos gostaria de ser um insecto para ficar a par do que sucede. Até se diz: quem me dera ser mosca para estar lá e ver e ouvir tudo! Eis senão quando, os drones tornam isso possível!

É verdade que já era possível usar um avião para sobrevoar uma qualquer cena, mas era uma observação distante e pouco discreta. Além do mais, é difícil de fazer secretamente: fica sempre um registo de voo. É igualmente verdade que um helicóptero serve melhor para esse fim porque voa mais perto da terra e das pessoas e pode pairar sobre um local mas ainda assim os helicópteros são ainda mais raros e mais caros do que os aviões. Os drones são a máquina de tele-presença quase ideal; para serem ideais precisam de tornar-se silenciosos e melhorar a autonomia.

Qualquer pessoa retida por uma fronteira sonha ser uma ave que voa livremente por cima dos campos e da cidades, ignorando todas as barreiras bidimensionais. Mas a força da gravidade manteve-nos presos ao chão durante milénios e todas as culturas tiraram partido disso para construir as suas fronteiras: muralhas de cidade, prisões, campos agrícolas, pastagens, províncias e países, em todos o limite entre um lado e o outro lado se definia por uma linha ou um contorno, eventualmente com alguns metros de altura. A mais famosa barreira do mundo é a Muralha da China que tem milhares de anos e na Europa talvez seja o Muro de Berlim que foi derrubado por vontade política e não por obsolescência técnica. Eis senão quando, os drones inutilizam todas estas barreiras!

É verdade que o transportador pessoal já foi inventado há muito: na década de 1950, os militares americanos promoveram o desenvolvimento de micro-transportadores verticais, dos quais se destacam dois modelos Hiller: o YROE que ainda parece um helicóptero e o VZ-1 Pawnee. Mas estes protótipos nunca alcançaram o público graças ao custo elevado e às limitações técnicas dos equipamentos.

Hoje, a evolução dos materiais e da tecnologia propulsão e electrónica permitem alcançar relações de potência/peso e carga útil impensáveis há alguns anos, de tal forma que um engenheiro talentoso de origem romena chamado Catalin Alexandru Duru quebrou o recorde de voo num “hoverboard” em 24 Agosto de 2014, perto de Montreal (Québec), Canadá. O sonho do filme “Regresso ao Futuro II” cumpriu-se um ano antes da data prevista no filme: 21 de Outubro de 2015.

Passado mais um ano, a empresa chinesa Ehang propõe o primeiro modelo comercial de transportador pessoal, já parecido com um “drone” multicopter: o EHang 184.

Que impacto terão os drones na nossa concepção de fronteira?

Em primeiro lugar, torna-se evidente que uma separação eficaz de “interior” e “exterior” exigirá a passagem das fronteiras bidimensionais para tridimensionais, passando-se de superfícies confinadas para volumes confinados. Se quisermos proteger-nos de intrusões, teremos de trocar as cercas de hoje por gaiolas, vivendo atrás de redes ou grades, tal como fazemos hoje às aves que não queremos deixar voar para longe (elas se movem desde sempre nas três dimensões!). Se quisermos proteger-nos da curiosidade alheia, teremos de viver dentro de uma caixa e ser muito mais ciosos com a concepção e o uso das janelas; na realidade, as pessoas que hoje têm portas de segurança reforçada à entrada de sua casa deverão tratar cada janela de forma semelhante à porta da rua.

Em segundo lugar, é de esperar que a regulação venha atrás das possibilidades tecnológicas tentando pôr um travão aos abusos. Diz-nos a experiência passada que os resultados são parcos e as regras são tanto mais contornadas quanto piores são as intenções.

Nota final

Este texto é o segundo de uma série de quatro sobre o impacto dos veículos aéreos não tripulados = UAV = drones nas sociedades. O primeiro chama-se “Uma inovação tecnológica transformacional“.

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One response to “A fronteira da terceira dimensão

  1. Pingback: Uma inovação tecnológica transformacional | Almofala·

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