Uma grande almofala

20151031_denfert-rochereau31 de Outubro de 2015, Place Denfert-Rochereau, Paris, França

São 18h. O sol pôs-se há meia hora por trás dos telhados. Sento-me num pequeno jardim enquanto aguardo o autocarro que me levará ao aeroporto. Na praça Denfert-Rocherau cruzam-se e confundem-se gentes e espíritos tão diferentes que nem consigo registá-los ou localizá-los. Parece que uma amostra do mundo desfila à minha frente.

A própria praça Denfert-Rochereau é trespassada de alamedas que organizam o trânsito para o Sueste de Paris. Sobram algumas árvores nas alamedas e dois pequenos jardins que não têm mais de 70 metros de comprido. Aquele em que estou, além de apertado pelas ruas, tem de compartilhar o espaço restante com o edifício da Inspecção Geral de Pedreiras; algo que parece exótico em Paris mas que é o ponto visível para entrada para o mundo invisível das catacumbas de Paris. É o ponto de atracção turística do local. O chão que sobra é uma meia lua cercada de árvores com quatro bancos de madeira de um lado e dois do outro; entre eles, uma passadeira, local ideal para o desfile a que vou assistir.

Da minha esquerda vem um casal que uma força magnética une, metade Outono frio, metade amor ardente. Subitamente, os dois pólos do íman separam-se. Ela decide tirar-lhe uma fotografia. Nem a beleza dele nem a dela fizeram virar as cabeças no jardim mas é evidente que cada um só tem olhos para o outro. Ele põe-se de frente, ela franze o sobrolho por trás do smartphone, ele roda para três-quartos com a luz do candeeiro a luzir na calva e ela mostra-se satisteita: “Super!”. Seguem caminho.

Oiço algo a restolhar sobre as folhas caídas atrás de mim. Viro-me e vejo um jovem pálido, magro e com acne vestido com uma camisola fina e capuz sobre a cabeça e mãos nos bolsos. Parece enregelado. Continua às voltas no meio das plantas procurando algo. De repente, salta a cerca baixa, atravessa a passadeira e vai para o canteiro do outro lado. Tira a camisola, estende-a no chão junto a uma árvore e inicia um conjunto de gestos rituais. Sem dúvida um muçulmano nas suas orações. Logo no banco mais próximo dele, dois homens grisalhos prestam culto ao deus Baco. Pelo tom da voz, as falas entrecortadas e os pacotes e latas à volta, parece-me que o que lhes sobra em fé, falta-lhes em dinheiro para oferecer sacrifícios mais nobres.

No banco à esquerda, um par conversa serenamente. No banco ainda mais à esquerda, outro par de namorados unem-se num abraço. Ela, negra, chora ininterruptamente, ele, caucasiano, aconchega-a, consola-a e beija-a na face enquanto passeia os dedos na longa cabeleira encaracolada dela. Durante os vinte minutos que ali estive, mantiveram esta atitude.

No banco à direita dos beberrões, dois homens de meia idade sentam-se cada um no seu extremo do banco. Não se conhecem mas fazem ambos o mesmo: protestam contra o os relógios que mascam o tempo estendendo um jornal que a fraca luz mal deixa ler.

Entretanto, o jovem muçulmano continua a rezar, indiferente aos circunstantes, ao trânsito à nossa volta e aos gritos de uma trintena de basbaques que aplaude a final do campeonato do mundo de rugby que passa numa das muitas esplanadas que emolduram a praça.

Passa por nós um homem disfarçado de algo infeliz – por causa do dias da bruxas, essa dita festa importada de uma América que a França copia tanto quanto desdenha – e com um semblante infinitamente mais infeliz do que a máscara que por trás da qual tenta esconder-se. Num primeiro andar, um rapaz novo, atlético e de tronco nu e indiferente ao frio assoma à janela para admirar uma camisa branca que acabou de pintalgar. Parece satisfeito com a sua obra-prima. Ele sim, fará a festa. Por baixo, duas empregadas de uma esplanada próxima esconderam-se numa soleira de porta para fumar: uma disfarçada de enfermeira com um uniforme branco de mini-saia, a outra de menina de colégio com mini-saia de xadrez e uma camisa branca decotada.

O rapaz termina as suas orações. Veste a camisola e parte em passo estugado. De todas as pessoas à nossa volta, é o único que parece apressado. Até os carros rolam ronceiros mas sem prescidir do buzinar, chiar e zunir habituais em Paris. Lembro-me agora que, ao atravessar a rua até ao jardim, cruzei uma freira de hábito cinzento que dirigia com dedos ágeis uma qualquer app no seu smartphone.

À minha direita, vindas do centro da praça chegam duas asiáticas. Japonesas, chinesas? Miram tudo à sua volta olhando para as casas enquanto falam muito rapidamente dando evidentes sinais de turistas. Ponho-me a pensar: quantas nacionalidades haverá nas 20 pessoas que se cruzaram neste jardim em 20 minutos? E quantas culturas mais? Paris é uma grande almofala onde cada uma parece ser indiferente à diversidade dos demais.

Os políticos dizem lutar pela tolerância, como se esta fosse a primeira etapa para a indiferença; para fazer uma aldeia global é preciso muito mais: curiosidade seria o primeiro passo; depois, o diálogo e a seguir, talvez a confiança.

Anúncios

Deixe uma resposta - Leave a Reply

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s