As ruínas de uma escola

20150509_eiad019 de Maio de 2015, Escola Afonso Domingues, Lisboa, Portugal

Frequentei a Escola Secundária de Afonso Domingues em Lisboa durante dois anos. Esses anos foram fundamentais pela aprendizagem escolar, pelo primeiro contacto com o mundo da engenharia, – em particular, a engenharia electrotécnica – que viria a seguir nos estudos universitários e depois na actividade profissional e por muitas outras aprendizagens.

Nos anos de 1980-1990 “a Afonso” era uma excentricidade no universo de escolas de Lisboa. Criada como escola industrial em 1884 já na zona de Marvila e transferida em 1956 para instalações construídas de raíz na Quinta das Veigas, a escola situava-se entre um bairro de lata (chamado Bairro Chinês embora quase só acolhesse Portugueses vindos do interior do país), uma cintura industrial decadente que nos era recordada pelo cheiro nauseabundo da Sociedade Nacional de Sabões sempre que o vento vinha de leste e os baldios agrícolas com tabiques de “privatização” espontânea por onde rebanhos de ovelhas lazarentas, cães antipáticos e burros taciturnos vegetavam e protestavam a sua sorte. Mais longe, à nossa volta, ficava a cidade. Havia problemas de segurança, a escola tinha cães de guarda à noite, que latiam ao desafio com os cães vadios, e mesmo assim não evitava todo o vandalismo e os assaltos. Apesar do arame farpado e do ar severo dos vigilantes, sentíamo-nos numa ilha de segurança lá dentro.

A escola tinha turmas de alunos do 7º, 8º e 9º anos (dirigidos aos alunos dos 13 aos 15 anos) iguais às demais: 30 alunos por turma, e 30 horas de aulas semanais quase sempre expositivas. Mas a partir daí tudo mudava: o 10º e o 11º ano ofereciam um ensino vocacional de grande componente prática e oficinal, nas áreas de mecânica, electrónica (chamada Radiotecnia), electricidade e desporto, uma excentricidade dentro da excentricidade, que ajudava a reduzir o desequilíbrio entre os números de alunos e de alunas.

Uma escola excêntrica

A tradição da Escola Industrial mantinha-se no letreiro da entrada (que ainda lá está!) e na prática das aulas em que havia um ratio de alunos por professor muito inferior ao ensino normal. No meu 10 º ano, a turma tinha no máximo 15 alunos a Matemática e 12 nas aulas de Electrotecnia (a minha especialidade) e às vezes 10 ou 11 noutras disciplinas. Esta diferença resultava de alunos que tinham chumbado a uma ou duas disciplinas e que precisavam apenas de obter aprovação nessas matérias (Matemática, Fisico-Química e Filosofia eram as disciplinas que mais atrasos causavam). No 11º ano foi semelhante.

Ora, quando se está numa aula com onze ou doze alunos, o potencial de aprendizagem é muito superior ao de uma aula com trinta alunos em que o nível basal de ruído e distracção é muito mais elevado. Dizia uma professora da época (I.C.):

Numa turma de 12 alunos há, no máximo, um palhaço; está tramado comigo. Numa turma de 30 alunos, há dois ou três palhaços; eu estou tramada com eles.

O resultado era uma aprendizagem mais rápida e mais profunda, sempre que os professores eram motivadores e brilho nos seus olhos acendia a centelha nos olhos dos alunos com o prazer da descoberta. Felizmente, tive muitos professores “incendiários” nesses dois anos.

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O segundo elemento diferenciador era a idade dos alunos: sendo uma escola de áreas difíceis e tendo eu escolhido Electrotecnia, que já à época era menos apelativa do que a electrónica, eu era o único aluno da minha turma com 15 anos no 10º ano, ou seja o único que nunca tinha perdido um ano. Aos 15 anos, vi-me rodeado de homens adultos, de barba rija, alguns dos quais regressavam do cumprimento de 18 meses de serviço militar obrigatório (e outros interromperam os estudos para o cumprirem). Fumavam, bebiam, jogavam bilhar, conversavam e relacionavam-se com homens e mulheres como adultos. Alguns namoravam professoras. Fui obrigado a crescer depressa…

O terceiro elemento diferenciador era o convívio com o ensino Técnico-Profissional (TP). Era um curso dirigido para a vida profissional enquanto a via de ensino visava primordialmente o acesso à Universidade. Tinham menos aulas “teóricas” e mais aulas práticas: por exemplo, a via de ensino tinha 3 horas semanais de Filosofia e 5 de Matemática e os TP tinham 2 horas de Filosofia e 3 horas de Matemática. Os alunos TP passavam esse tempo adicional nas oficinas (para nossa inveja!).

Eram alunos mais maduros, mais duros até. Mas não eram menos aplicados ou menos inteligentes. Recordo longas discussões de Filosofia em aulas abertas a todos os que quisessem participar e onde se discutia ética e epistemologia com a urgência do pão para a boca e como se o curso do tempo se suspendesse até que chegássemos a conclusões.

20150509_eiad04Bancadas de tornos mecânicos de precisão nas oficinas

Finalmente, o quarto elemento diferenciador era a curta diferença de idades entre alunos e professores: sendo uma escola num bairro difícil, era preterida por muitos professores e, consequentemente, tinha uma elevada percentagem de professores novatos, alguns no seu primeiro ano de aulas. Com professores excepcionalmente novos e alunos excepcionalmente adultos, os laços de camaradagem, de desafio e até de namoro eram inevitáveis e a gravitas associada à figura do Professor era, no melhor caso, diáfana. Não esqueço que passei a noite de Santo António do 11º ano com a minha turma, a “stôra” de Matemática e o namorado dela 🙂 cantando alegremente pelas escadas da Graça e de Alfama.

O caldo social

Na minha turma havia filhos de desempregados e de biscateiros, de ciganos vendedores ambulantes e vendedores de feira, de peixeiras e vendedoras de mercado, de funcionários administrativos, de bancários e também de diplomatas. E as outras turmas eram semelhantes. Este caldo social é inesquecível e criava uma forte marca nos alunos. Quando cismávamos sobre o futuro na dolência das tardes quentes, falávamos tanto de futebol como de política como de esquemas para ganhar algum dinheiro. Da minha turma da via de ensino com 12 alunos, apenas dois chegaram ao Instituto Superior Técnico (a escola de eleição nesses anos), e só um em electrotecnia. Já em Radiotecnia (=Electrónica), a taxa de sucesso na chegada à Universidade era superior. Isto indicava bem a excepcionalidade da formação universitária que perdurava ainda em Portugal na década de 1980.

20150509_eiad05Bancadas do laboratório de electrotecnia

Com eles aprendi ou confirmei que a vida é difícil, que ser soldador, técnico de electrónica ou mecânico de reparação naval é um sonho pelo qual vale a pena lutar e que ser engenheiro está reservado às classes altas ou aos alunos pobres excepcionais. Aprendi o conceito de “suficientemente bom” que muitos seguiam como métrica da vida. Quando um colega (P.J.B.R.) chega sempre atrasado à aula de Matemática das 8h30 depois de trabalhar duas horas a ajudar o pai a montar a tenda de venda de calçado na Feira da Ladra, damos muito mais valor aos seus resultados de 60% do que aos 80% dos alunos que saem frescos da cama e directos para a escola.

20150509_eiad03Aqui suspirámos e sonhámos Portugal e o nosso futuro

Tive tempo para tudo: para aprender as matérias lectivas e as transgressões da adolescência, as parvoíces e até algumas ilegalidades.  E aprendi também que só as faz quem quer. É verdade que, às vezes, o autocarro 62 era seguido por um carro da PSP até Moscavide para prevenir males maiores e que o velho autocarro 39 tinha as lâmpadas do piso superior regularmente roubadas (que não serviam para nada porque o casquilho era único!) Aprendi a crescer como homem e como cidadão. E confirmei que as pessoas boas existem em todas as classes e funções sociais.

E, mesmo sabendo que foram as pessoas o que mais me marcou nesses anos, visitar o espaço em que vivi e vê-lo como o vi, é muito doloroso.

 As ruínas de uma escola

Antigos alunos e funcionários juntaram-se no facebook e outros pontos de encontro virtuais e agendaram uma visita à escola. Um colega meu soube e telefonou-me três horas antes do evento e eu fui a casa correr buscar a máquina fotográfica. As fotografias que acompanham esta crónica registam essa visita.

20150509_eiad06O refeitório na penumbra

20150509_eiad07A biblioteca onde consultávamos as tabelas de enrolamentos dos transformadores

 20150509_eiad08Já que não há quadro na sala 10, ficou o humor negro

Tal como previsto no post anterior, os UAV, RPAS ou drones, como lhes quiserem chamar, marcam a aurora de uma nova era pois foi-me possível fazer alguns vídeos aéreos de improviso. As imagens seguintes são extraídas desses filmes.

 

Referências

  1. Escola Secundária Afonso Domingues na Wikipedia; a partir daqui é possível seguir outras referências com fotografias e história da escola.
  2. Restos de colecção, blog de José Leite com fotografias muito antigas da escola original
  3. Reportagem da RTP sobre o encerramento
  4. Vera Veritas, blog de João Pimentel Ferreira
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