Uma inovação tecnológica transformacional

20141116_parede16 Novembro 2014, Parede, Cascais, Portugal

A introdução de veículos aéreos não tripulados* é celebrada por muitos entusiastas e pela comunicação social como uma inovação de grande impacto.

A União Europeia  afirma sem rodeios no primeiro parágrafo  da declaração de Riga sobre drones  em 6 de Março de 2015 : “They are a truly transformational technology”. Cerca de um ano antes, a Comissão Europeia enviara ao Conselho e ao Parlamento europeus a comunicação COM(2014)207 com o título: “A new era for aviation – Opening the aviation market to the civil use of remotely piloted aircraft systems in a safe and sustainable manner”. Já estou habituado a discursos hiperbólicos dos políticos mas, desta vez, e porque acompanho o sector há anos, dou-lhes o benefício da dúvida: talvez seja mesmo verdade que ainda só adivinhamos uma  pequena fracção das transformações que os drones trarão à sociedade.

Na comunicação social abundam referências aos problemas de segurança, protecção, responsabilidade civil, vigilância excessiva, privacidade, terrorismo, conflitos assimétricos, que se antecipam para os drones, referidos a par com os potenciais benefícios na redução de consumo de combustíveis e de mão de obra, reforço da capacidade de recuperação em cenários de catástrofe, monitorização do ambiente, entre outros. Não me quero alargar nestes temas, até porque já foram bem tratados e sê-lo-ão ainda no futuro em termos jurídicos, técnicos e regulatórios. Preferia antes olhar para outras inovações, mais subtis, que merecem reflexão, nomeadamente:

  1. O fim do privilégio de Ícaro.
  2. A redefinição das fronteiras, que passarão de duas dimensões para três dimensões.
  3. A preponderância do registado sobre o vivido.
  4. A crescente mediação de recepção da informação.

Por ora tratarei da primeira.

O fim do privilégio de Ícaro

Desde há cerca de 10 anos que efectuo algumas tarefas profissionais relacionadas com as inspecções de linhas eléctricas a partir de helicópteros. É nessas ocasiões que capturo imagens como esta. Para efectuar bem o trabalho, é necessário voar perto do solo, o que permite observar o quotidiano das pessoas que vivem no campo e os “quintais das traseiras” que não são normalmente abertos a estranhos. Quando o trabalho decorre sem sobressaltos, essas viagens são também ocasião para um imenso maravilhamento com o mundo à nossa volta e uma oportunidade de perceber melhor a interdependência entre a geografia, a história e a economia: voar sobre o vale do Tejo em Portugal explica claramente o tipo de exploração agrícola, de povoamento e de relacionamento dos vários grupos económicos desde o final da I Dinastia em 1383. Infelizmente, é uma aula cara demais para oferecer a todos os alunos.

Este privilégio de poder aparecer de súbito em quase qualquer ponto do território, sem aviso prévio nem barreiras, ainda é uma raridade. Na maioria dos casos, as pessoas surpresas continuam as suas actividades, excepto quando param um segundo para olhar para o céu, ou até para acenar à tripulação do helicóptero.

Mas, com a banalização dos drones, pelo menos esta visão do mundo estará ao alcande do cidadão comum. E depois de passar anos a comprar os livros “X visto do céu”, onde X pode ser Paris ou as Pirâmides ou a migração de baleias no oceano, descubro que dentro em breve essa será uma visão ao alcace de muitos, pelo menos do ponto de vista de uma câmara. E se sinto uma ponta de inveja pela perda do privilégio, é com entusiasmo que encaro a ideia de dar a descobrir o nosso mundo de um novo ponto de vista.

A fotografia acima foi obtida com um drone na praia, num ponto de vista que seria quase impossível de obter há cinco anos: fotografando a praia a partir do mar, acima da linha do horizonte mas demasiado próximo para que um helicóptero ou um avião ultra-ligeiro se aproximasse tanto sem uma forte razão para tal. Apresento abaixo uma fotografia da mesma zona tirada a partir de um helicóptero tripulado para comparação.

20120211_parede11 de Fevereiro de 2012, Parede, Cascais, Portugal

*a abreviatura VANT para Veículos Aéreos Não Tripulados é mais comum no Brasil enquanto em Portugal é mais comum a abreviatura UAV para Unmanned Aerial Vehicles. Nas organizações internacionais aeronáuticas usa-se Remotely Piloted Aircraft Systems  [RPAS]. Além destas, a expressão “drone” sendo menos exacta tornou-se a mais popular desde 2013.

P.S.: Num Jardim Zoológico holandês, um chimpanzé reagiu inteligentemente a este admirável mundo novo. Porque será que me lembro tanto de um filme futurista como 2001, Odisseia no Espaço de Stanley Kubrick (em colaboração com Arthur C. Clarke)?

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2 responses to “Uma inovação tecnológica transformacional

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