Recordando Edward Hopper

200305_barra
Maio de 2003, Barra, Ílhavo, Portugal

A maioria dos textos sobre a pintura de Edward Hopper referem as paisagens imensas, urbanas ou campestres, as geometrias ricas de tensão entre linhas verticais e oblíquas, as cores fortes e os contrastes nítidos (tudo elementos contidos em “Cobbs Barns and Distant Houses“, 1930, por exemplo) e a solidão da vida urbana, mesmo em cenas familiares (“Room in New York“, 1932).

É também frequentemente escrito que Hopper faz um jogo com o espectador, manipulando o interior e o exterior, em que o espectador que se sente quase personagem, ao lado das figuras retratadas olhando de dentro para fora (“Room in Brooklyn“, 1932), ou na rua como numa plateia de teatro, olhando de fora para dentro a cena iluminada (o mais famoso “Nighthawks” de 1942) ou quando as personagens assomam à janela para gritar algo (“Four Lane Road“, 1956), ou imaginando o que se passa quando elas olham para fora da cena vendo algo que o próprio espectador não vê (“Eleven A.M.” de 1926), com meias portas, meias janelas, cortinados e soleiras interrompidos, sombras e vãos de luz projectados no solo, nas paredes e no tecto, deixando campo livre para imaginar uma história para cada quadro em que não se pode intervir.

Finalmente, é realçado o uso de cores saturadas  e contrastadas, como percursor da pop art que viria a seguir.

Quando comecei a trabalhar e a decidir um plano de despesas mensal, um dos primeiros livros que comprei foi “Hopper” de Ivo Kranzfelder, editado pela Taschen e traduzido para português. Pareceu-me simbólico começar uma colecção de uma editora que pretende popularizar a arte com um livro sobre um pintor que é popular junto das massas e que fez delas o seu motivo principal.  Sem prejuízo de leituras mais profundas que eu não alcanço, a simples observação das mensagens explícitas satisfaz o meu olhar leigo e fica-me na memória.

O que mais me atrai na pintura de Hopper é a elevação do quotidiano ao nível da arte e, em particular, do quotidiano da imensa classe média anónima que vive pendularmente entre a casa e o trabalho e que compõe o “proletariado” do séc XX (e XXI) ou, numa formulação francesa, no ciclo infinito “métro-boulot-dodo”.  Talvez se Hopper tivesse vivido mais tempo, chegaríamos a vê-lo sacralizar os gestos banais de lavar a loiça, arrumar um armário, passar a ferro, mudar um pneu furado, cuidar das unhas,  consultar um médico  ou estudar para um exame. O segundo traço que me atrai é o tema da solidão no bulício da  cidade.

Quando um dia o acaso me pôs diante da cena retratada na foto acima, lembrei-me imediatamente de Hopper e, escondido por trás de um obstáculo para não perturbar o meu modelo involuntário, tirei duas fotografias.

Os traços de Hopper estão em todo o lado: o enquadramento oblíquo (ao contrário da maioria dos quadros, como “New York Pavements” de 1924,  preferi o contra-picado para realçar a estatura da criança), as cores fortes dos azulejos da região de Aveiro, tão características da arquitectura do início do séc. XX, a solidão do modelo que, vestido para uma festa, corre a isolar-se desta e a porta entreaberta que sugere (ou não?) a animação no interior. Finalmente, o espectador descobre-se à espreita, desconhecendo os pensamentos do modelo bem como o ponto de atracção do seu olhar situado fora da cena;  juntei tudo para esta memória de Edward Hopper.

Anúncios

Deixe uma resposta - Leave a Reply

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s