Lembranças que queremos esquecer

é proibida a mendicidade16 de Julho de 2005, Almeirim, Portugal

Não, não estamos iguais a 1945 quando saiu o Decreto-Lei nº 35108 que pretendeu criar um quadro regulador da assistência social, ainda de orientação assistencialista.

As diferenças são flagrantes: à época, metade da população não conseguiria ler a mensagem, sem prejuízo dos visados compreenderem perfeitamente o seu significado. À época, a maioria dos mendigos não ultrapassava 1,5m nas mulheres e 1,6m nos homens, seja por fome de nutrientes na infância, seja pelas costas vergadas ao peso de uma vida sujeita à boa vontade alheia. Dizia-se “andar às sopas de Fulano” com o significado de “ser dependente de Fulano”.

À época, a maioria dos mendigos era considerada capaz para trabalhar, não só porque se começava mais jovem e se trabalhava até idades mais velhas, mas também porque o número de sobreviventes velhos demais para trabalhar era muito menor: à época, a falta de vacinação e de cuidados de saúde primários, as escassas práticas de saúde pública, com destaque para o controlo da salubridade da água, ceifavam uma quota parte dos mendigos.

E, no entanto, ….

No entanto, regressam as memórias desse tempo, ainda testemunhadas na minha infância mas sobretudo relatadas por familiares e descritas na literatura: Miguel Torga, Alves Redol, Graça Pina de Morais, Domingos Monteiro, Fernando Namora, Manuel da Fonseca, Aquilino Ribeiro, só para recordar uma mão cheia de autores.

No entanto, frente à Igreja dos Anjos em Lisboa, a Santa Casa da Misericórdia mantém um refeitório a quem ninguém conseguiu ainda tirar o nome de “Sopa dos Pobres”.

Sinto que, enquanto comunidade, desistimos das pessoas que mendigam e que são bem mais numerosas do que simplesmente os “sem-abrigo”. Os apoios comunitários já só abrangem as pessoas em necessidades extremas e já só lutamos para as manter vivas e sem doenças que ponham em risco a saúde pública; perdemos o alento de as resgatar para a vida activa na sociedade.

Em 1993 fui chocado por um aluno que me disse que “o problema de Portugal se resolveria se desaparecessem os 2 milhões de velhos e inúteis que são um peso para a sociedade e que contribuem zero para a economia. Matá-los seria chocante, mas deixá-los morrer de forma barata seria o ideal.” Que será feito dele? A sua vida profissional não se afigurava fácil: não tinha trabalho, frequentava formação profissional  e era bastante mais velho do que eu. Será que mudou de ideias? Será que está a envelhecer a custos mínimos, segundo a sua “política”?

Os ingleses, especialistas do understatement, inventaram um classificador lamentável, talvez mesmo cínico: tthe underprivileged; os sub-privilegiados. Parece que a capacidade de ser autónomo para sustentar uma família e ser activo na comunidade já é um privilégio.

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