A paciência recompensada

A rezinguice punida e a paciência recompensada

Numa manhã de Fevereiro, saí ao romper do dia de uma casinha no Alentejo onde vou de vez em quando descansar uns dias, em busca de um bando de gamos que percorrre livremente as herdades da zona, pulando sobre as cercas de arame farpado e a tudo chamando seu. Convivem com javalis, perdizes, coelhos, raposas e saca-rabos e são o prémio mais vistoso para um fotógrafo amador nessa região.

Os gamos são esquivos e mantém-se a recato durante o dia, saindo apenas ao nascer e pôr do sol e no Inverno são ainda mais difíceis de observar porque têm menos necessidade de água.

Nessa manhã, palmilhei os montes e, ao fim de duas horas, tive sorte:

20080205_gamos1

5 de Fevereiro de 2008, Montemor-o-Novo, Portugal

Tirei várias fotografias aos gamos e, após o almoço, mostrei-as aos meus filhos (ainda me surpreendo com este prodígio da disponibilidade imediata das imagens nas máquinas digitais). Claro que eles quiseram vir à tarde comigo para também os verem. Eu retorqui automaticamente: “nem pensar!” Primeiro, porque é uma grande caminhada, depois, porque três crianças são mais barulhentas que uma roulotte de feira e espantam todos os animais numa légua em redor.

Eles insistiram – até que o mais novo desistiu diante da perspectiva de duas horas a caminhar a pé por terrenos difíceis. Ficaram dois, que não desistiram. Suspirei. Auto-censurei-me e disse-me que ser pai é ter paciência para eles e para os seus sonhos e também poder ensiná-los a ultrapassar as inevitáveis frustrações.

Vesti-me e calcei-me de paciência e, com este propósito pedagógico, saí com duas crianças de 9 e 7 anos. Passava das quatro horas e tínhamos um horizonte de hora e meia de luz pela frente.

Andámos e andámos pelo montado verde e húmido. Subimos e descemos, passámos cercas, arranhámo-nos e molhámo-nos no mato que já cheirava a Primavera. Pedi-lhes que guardassem silêncio. Qual quê! Falavam sem parar; a princípio, eles falavam nos gamos, depois enviesaram para os jogos electrónicos nas consolas e nos computadores que é um tema bem mais interessante e, sobretudo, inesgotável. Eu ia atrás deles pensando “vão aprender a lição! Ficam moídos de andar e, na melhor das hipóteses, talvez encontrem um coelho morto que não fuja!” Ainda para mais vêm vestidos de cores garridas; os gamos topam-nos à distância.

Não vimos nada que nos chamasse a atenção, com excepção de algumas aves fugidias que se afastavam mal ouviam as duas gralhas no solo. Até que, à hora em que as cores abandonam os campos deixando um tom pardacento que anuncia a noite, os encontrámos:

20080205_gamos25 de Fevereiro de 2008, Montemor-o-Novo, Portugal

Contra todas as probabilidades, tiveram mais sorte que eu: viram mais gamos cansando-se menos e ficaram mais maravilhados. O meu pessimismo resmungão aprendeu uma lição  e partilhámos alguns minutos de maravilhamento e felicidade muda.

Sobre o tema dos gamos e no mesmo local (mas com outros gamos) ver também o Carnaval do Animais II.

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One response to “A paciência recompensada

  1. Pingback: O Carnaval dos Animais II | Almofala·

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