Lembrando o Carnaval dos animais

20050328_aveiro328 de Março de 2005, Aveiro, Portugal

Uma das maiores vantagens que encontro na música sobre as artes plásticas é que deixa a cada espectador um enorme espaço para imaginar visualmente uma cena que corresponda à música. Se eu fechar os olhos num concerto posso “ver” algo completamente diferente daquilo que “vêem” as pessoas à minha volta enquanto somos todos sujeitos ao mesmo estímulo musical. Nos livros de texto, há ainda latitude para a imaginação, embora menor: quando um autor descreve uma figura franzina ou uma aurora radiante, cada leitor vê o que quiser.

Com a passagem dos livros para as artes performativas, a latitude de imaginação estreita-se. Mesmo no caso das obras populares que são interpretadas por diversos actores ao longo do tempo, há actores que atravessam gerações como a “verdadeira” corporização de Sherlock Holmes (Jeremy Brett) ou Lawrence da Arábia (Peter O’Toole) e quando leio os livros não consigo deixar de pensar na figura dos actores.

Ao escutar a música passa-se algo de semelhante: há trechos musicais e canções que foram de tal forma identificados com um trecho de um filme que não consigo evitar pensar neles quando oiço a música. Há vários exemplos muito conhecidos, em que a música se torna “aquela canção que se ouve naquela cena…”: A cavalgada das valquírias de Richard Wagner e o ataque à aldeia no filme Apocalipse Now de Francis F. Coppola, Assim falava Zaratustra de Richard Strauss e 2001: Odisseia no Espaço de Stanley Kubrik.  Há outros casos menos conhecidos que tiveram o mesmo efeito em mim: a abertura da Força do Destino de Giuseppe Verdi e os filmes “Jean de Florette” e “Manon des Sources” de Claude Berri, baseados nos romances de Marcel Pagnol (música, literatura e cinema de mãos dadas!).  Também há casos simétricos, em que peças divulgadas por um filme tomam vida própria: “Always look on the bright side of life”, extraído da “Vida de Brian” dos Monty Python, é um exemplo.

Mas ninguém conseguiu limitar a minha imaginação musical tão eficazmente como os estúdios Disney. Desde que ouço as Silly Symphonies que só consigo ver “aquelas” músicas “daquela” maneira. Quando vi o filme Fantasia de 1940 pela primeira vez era ainda um garoto; vi-o na televisão,, a preto e branco, e não percebi bem o que se estava a passar.

Vi-o novamente no cinema na adolescência e fiquei fascinado pela combinação perfeita entre música e animação, mesmo quando o tema é fundamentalmente diverso como na Sagração da Primavera: o tema da animação é o surgimento da vida na terra enquanto a música (e o ballet!) descreve a imolação de uma menina que dança até à morte.

Aprendi ainda que a animação não tem de ser arte para crianças (uma arte “menor”, pelo menos na estatura da audiência). Viria a descobri-lo igualmente na Banda Desenhada. As peças “Uma noite no monte calvo” e Ave Maria no final são dirigidas a adultos e têm um traço que nunca mais encontrei nos estúdios Disney. O que produziriam aqueles artistas libertos dos constrangimentos do “formato” Disney?

Anos depois, estudei algum tempo na Baviera, Alemanha, e a Radio 3 acordava-me todos os sábados tocando a Dança das Horas de A. Ponchielli no meu rádio-relógio às sete horas da manhã. Os bávaros não são preguiçosos, mas uma música animada – e a recordação de um hipopótamo apaixonado correndo atrás de um crocodilo que o quer devorar, sob a benção enlevada de um bando de avestruzes e elefantes – ajuda-nos a saltar da cama no Inverno.

As peças da Fantasia acompanham a minha memória musical e corri a comprar o DVD da Fantasia 2000 quando este foi publicado (nunca o vi em exibição no cinema). É voz corrente dizer-se que a “sequela” é pior do que o “original” mas não vou comparar os dois filmes. Não obstante, senti-me defraudado com a repetição d’ “O Aprendiz de Feiticeiro”, sobretudo quando a narradora nos diz que vários segmentos ficaram de fora, mas acho que as peças novas respeitam o espírito da Fantasia e permitem uma actualização estilística da animação que enriquece o conjunto. Hoje os meus filhos vêem os dois filmes com prazer e, no caso dos mais velhos, já sabem notar as diferenças de estilo do traço e até do estilo da música.

E no meio das peças novas aparece uma loucura de dois minutos: o final apoteótico do Carnaval dos Animais que recria o espírito das Silly Symphonies no tema. Curiosamente, o cenário é totalmente despojado, enquanto as Silly Symphonies tinham cenários bucólicos ou florestais pintados com grande pormenor. Dir-se-ia que a loucura súbita dos flamingos ocorre num palco  aquático em que a cenografia se resume a alguns projectores coloridos no fundo; tudo o mais distrairia o espectador do essencial, ironizado pelo narrador ao introduzir a peça.

O youtube tem várias versões.

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